terça-feira, 11 de novembro de 2014

Minas

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

ROÇA NOVA










A massa
faz a causa
que a gente
come.

FARTURA

Dormem os meus sonhos
numa vitrine de padaria
como tenho sido e estado
como tudo que fabrico

farto de massa.

OUTRO

Minhas bagagens foram todas perdidas
Sem que eu me importasse sequer
Em rever os meus pertences esquecidos

E me fiz leve como linha ao vento

A costurar novas impressões.

REFLEXO

O espelho que inflama luzes brancas
No granito espelha
a gente espelhada

Refletindo imagens siamesas

No estilo nu das etiquetas.

BISCOITOS

A padaria do meu avô vendia
Todos as delícias de uma doce infância

Sonhos e marta-rochas
Pedaços de pudim
Quindins refinados
E biscoito-fino

Ainda há o calor dos pães
E o gosto do rocambole aqui dentro

Meu pai e minha avó
Os sonhos e os cafés
O balcão, o caixa de alavanca
- Trim

A felicidade vinha no ar em fim de ano
Com todos os assados do natal
Tostando a pururuca

Ah meu tempo dourado
Venderam a padaria

E ficamos mais salgados.

OBREIRO

Abrindo fendas na terra
Trago a luz colunas e estruturas
E assim prospero o desamor

Ainda que pince meus nervos
Travando minhas costas
Arrasto-me feito um cão atropelado
Até os confins da paisagem desfigurada

E no compasso batido da formiga

Vou erguendo a nova morada.

ABERTURA

A janela de um azul fechado
Abre pela manhã para receber o sol
Que como a família
Entra cantando e ferve a água
Do amargo café

A janela da casa da minha tia
Fecha as 16h para os pernilongos

Mas se bater na porta
Sempre tem um pedaço de prosa

Guardado numa lata de broa.

FRAGRÂNCIAS

Beijos e maravilhas
Rosas e azaléas

E nessas simples formas de cultivar a vida
Os jardineiros cultuam
Como um boticário

As fragrâncias dos mais deliciosos perfumes.

BARRO

As velhas igrejas de Minas
Vão durar mais do que nossa moderna cidade
A argila do passado é muito mais forte
Que o concreto do presente

É como se o passado apagasse o futuro
Fazendo dele apenas passageiro

Guardando as nossas tradições
Nos traços e compassos

Fixos como os crucifixos

A fotografia diária do nosso sacrifício.

VISÃO

A cidade de cima é estranha
As luzes são cenas
Os quartos são filmes
E toda a luz se apaga

Os faróis se cruzam
As ruas se contorcem
E o tempo mingua

Inevitavelmente.

VISÃO

A cidade de cima é estranha
As luzes são cenas
Os quartos são filmes
E toda a luz se apaga

Os faróis se cruzam
As ruas se contorcem
E o tempo mingua

Inevitavelmente.

VERSO A LENHA

Paixão por fogão a lenha
Nem precisa acender
Basta estar ali
Como um alicerce da casa
Ou pilar da tradição

O fogo começa pelos mais finos gravetos

Assim como as mais incendiárias melodias.

ANTÔNIMO

Só o amor não enxerga pelos defeitos

Mas pela sensação
De um morder de maçã-verde
Que chega a estalar na boca

Só o amor não cheira pelo suor
Mas pelas flores alegres
Que exalam e se embebem
Da transpiração do jardineiro.



JANELA COLONIAL

 O chão da casa
Reflete o sol e a cera
Que queima e escorrega

Das nossas cozinhas
Com cheiro de lenha e fumaça
Abrimos a a massa e o coração
Como as janelas de antigamente.


SAUDADE

A saudade é um escapulário no peito

Um retrato borrado de batom

A sola muito mais do que gasta

E o couro ressecado
De tanto ir.



PRAÇA

As praças do interior
Eram leves como um poema
Verdes e floridas como o cinema
E cantavam seus retalhos
No costurar da vida
Todo o tapete da nossa saudade

A música foi ficando mais alta
E a grama dando lugar ao concreto

Os bancos onde faziam ninhos
Foram tomados por quadras
E desaparecendo os pássaros

Mas a praça ainda sobrevive
No silêncio das manhãs
E na solidão da madrugada
Onde o poste reluz
O baú da poesia
Enterrado feito um osso
Duro de encontrar.



PASSAGEM

Na parte alta da pequena cidade
Quando cai a noite e as velas acendem
Na escura e fria capela
É o anúncio de passagens e saudades

A caixa triste do último baile
Embala o corpo para o último canto
O carro funerário desliza silencioso

E o choro contorce o trajeto.

AVENIDA ROSA

Em dias de chuva
Na rua que era de argila
Escorregávamos felicidade
no morrinho da esquina

O grande parque de barro
Cobrava caro o ingresso da bronca

E o canto estridente da correia

Corria contra nossa alegria.

CHUVAS DA TARDE

Minha avó fritava bolinhos
Quando a chuva fechava a padaria

O cheiro do fósforo ainda acende a memória

Café em xícara de lata
Doce como vovó

Deitava-se cedo
E na escuridão
Chovendo ou não

Ela percorria suas preces no terço. 

CIDADES

Sou de muitas cidades de Minas
Muito mais delas que elas de mim
Eu partirei elas ficarão
Com suas esculturas duras
E suas curvas acentuadas

Com seus telhados altos
E o cheiro de candeia queimada

Virão outros poetas
Que teceram novas paredes
E jardineiros semearão novas primaveras

Minas continuará sendo Minas
Como um queijo curado
Uma cachaça curtida
E o terço cada vez mais fundo

Na alma e no coração do povo.

ROSAS

Nossa casa era mais jardim que casa
E era eu que levava as flores para passear
Algumas delas ainda estão guardadas
Intactas dentro de livros
Que quando abertos
Trazem a tona e a saudade

O tom de nossas roseiras.

MÃOS

Uma casa é como um poema
O pedreiro tece como um poeta
E a parede sobe
Como um verso que cresce

O título é o telhado
Que tira o verso da chuva
E corre para a cama quente

A cozinha é a porta de entrada
Como a metáfora que dá forma ao bolo
E fermenta feito cimento

A massa da construção.

ESTRADAS

Sou da geração do vídeo game
Mas o meu mofou
Enquanto eu
Arejei meus pés
Torneei as pernas
E enfrentei os rios
Pesquei todas as mentiras
Dentro dos peixes mais gigantes

Que me carregaram para dentro d’água.

ANDANÇAS

Quero esculpir o passado
Numa rua de barro
E resgatar nossa alegria

Vou redesenhar a casa
Como ela sorria

Trazer os primos de volta
E parar o tempo

Como numa fotografia.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Y

Tenho uma dose de certeza no peito
No olhar e nas palavras duras
Numa despedida engasgada
Que não consegue ser doce

Estou partindo a estrada
Colocando um ípsilon em sua reta
Como uma encruzilhada que se inaugura
Em direções opostas.

Pássaros

A janela da direita está aberta
E o vento levanta flores
Que voam coloridas

Desflora liberdade
E mostra seu desejo
Porque tens a ânsia
Que vê o belo trançado
Que costura o fazer dos ninhos.

Lembranças

Quem te amou
Sempre será muito mais teu
Do que aquele que você ama

Como aquilo
Ou isso
Ou qualquer outra coisa

Só há felicidade
Quando se guarda junto
O lance que ama.

Moeda

Inauguro a paixão irreal em meus significados
As dores tão insignificantes
Os desejos mais objetivos
As janelas mais do que interessantes

As portas se abrem com muitas flores
As janelas
A sacada
O céu envolto de uma lua querendo sol
De um dissabor querendo tempero
De um nada desejando um tudo

Inauguro a paixão do submundo
Como desejo do mundo solitário
Subversivo e atormentado

Corto a fita do que está por abrir-se
A querer o meu sol

O sol da boa vontade
Da solidariedade e a ideia positiva
Imperando sobre as dificuldades subjetivas

Inauguro o inesperado
A saída pela porta invisível
O chegar pelo oculto da poesia

Inauguro as casas
As massas
As flores
E a energia

Inauguro a felicidade
Como fim da inércia
Que cobriu minha poesia.

Criações

Depois de criar minha moeda
Decidi empilhar tijolos
E cobrir minhas mãos de calos

Esculpir as colunas
Os corredores sobre os alicerces
E as cores do nosso destino

E a forma foi ignorando o compasso
Procurando apenas o ângulo onde cruza a régua
Numa simetria letrada
Desenhando os códigos onde cantam metáforas
Pintando páginas de arte concreta
Como no peito de uma enxada
Que mistura o concreto
E que faz firme a paixão.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

QUERERES

Quero dormir no teu cheiro
Entre tuas taças
Embriagar do teu vinho casto

Quero encontrar tua rua
Chamar por tua boca
Embaraçar nos teus cabelos

Quero me perder em ti
Confundir contigo
Plantar em seu jardim

Quero sentir seus suspiros
Aspirar as flores que planto
Apenas para te ver sorrir.

DORES

O amor corre na praia
Mas é a praia que corre por ele
Porque não há praia sem amor
Nem correria sem paixão

O amor te faz andar pelos trilhos
Comendo as estradas
Acordando sem descanso
Engolindo o próprio cansaço

O amor escraviza os sentidos
O psicológico, o etílico e moral
O amor em si é imoral
Em mim, anormal
Amor apócrifo

Amortal.

DESEJO

A noite é um substrato da paixão
Nela cabem todos os amantes
Estrelas, gaitas e amores suados
Sob uma cama a meia luz
Com a lua visitando os sobrados

As noites são ainda mais charmosas
Quando um dia de sol suscita
Que as nuvens abrirão suas cortinas
Para o espetáculo celeste

Que haja vinho e esperma
E gozo abundante para celebrar a noite

Que amem as casadas
As descasadas e as descoladas

Que amem as descaradamente nuas
As tímidas e as falsas-certas
Mas que gozem

Para sorrir feito jardins.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O ENTREGADOR DE PÃES

O dia desperta com o peão da bicicleta
E o cheiro do pão quente no balaio de taquara
Pedalando o acordar dos galos
Como quem dá corda numa caixa de músicas

A catraca rompe no pedal da manhã
Descortinando a noite
Como se o sol emanasse do aro rodado

Inaugurando o destino
Cortando a fita do porvir
Com seu canto-grito:
- Padeiro


E assim, meu avô fazia nascer o sol.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pudins

Da vida não se leva as mazelas
Tampouco algum sentimento puro
Mas é o refino que detalha

Tudo se guarda enquanto se vive
E quando se parte,
Repartem lembranças
Em pedaços curtos de poucas passagens
Restando apenas viver

Repare que as pessoas felizes
Vivem intensas como o mar na tempestade
Despejam muito vinho na alma
Sabendo que a juventude passa
E tomam vários porres e se deixam sorrir

Desfrutam amores inteligentes
Charmosos e que gozam merecidamente
Sem bloqueios desconcertantes

Pessoas felizes abrem distâncias
E vivem longe das drogas e dos drogados
Do excesso do álcool sem paixão
O que entorpece corrompe o caráter
E o lamento é o pior dos sentimentos

Pessoas felizes
Não trabalham sujo ou se sujeitam
Ajoelhar, nunca

A única coisa que faz falta é apetite
Conservam o paladar
Apreciando cada prato
A textura e o sabor da diversidade

Os felizes são humanistas
Conversam com cachorros e peixes
Apreciam aforismos
Decoram árvores de versos
E sabem muitas canções
Criam suas máximas
Determinam suas mínimas
Nadam contra as marés

Pessoas felizes são de esquerda
Não esquerdistas
Não perdem seu tempo com a direita
E seu mundo egoísta e paranoico

Pessoas felizes cantam em voz alta
Apreciam as notas
E a vibração das suas variantes
Nutrem grande fé nas pessoas
Na força das mudanças e da evolução
Colocam seus bichos pra fora
Pessoas felizes são pudins.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Puxão de orelha


Formas

E como se me a mão deslizasse na argila
Vou esculpindo e moldurando o objeto
Até formar o gargalo da moringa

E como se meus dedos traçassem os riscos
Vou perfazendo os pequenos detalhes
Até constituir uma tela colorida e dependurada

E como se meu corpo fosse uma estátua viva
Vou contorcendo cinza e abrilhantado
Até o desavergonhar desdentado do sorriso

E como se minha alma dissipasse metáforas
Vou distorcer o sentido das palavras
Até imprimir em tua alma o delírio da minha arte.

Chuvas

As ruas da noite ganham abraços
E vidros embaçados
Depois das águas torrentes
Do mês de dezembro

A chuva que maltrata
Nos afaga
Despreocupadamente

A madrugada e os bichos da noite
Desgovernados e desalojados
E minha mão se ocupa apenas
Desta obra íntima
Que me liberta do desamor.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Algum Verso

Todo tecido nasce branco
Como a noite
Que ganha estampas
Quando o dia decanta

Como um amor corriqueiro
Desses que precisam de afogamento
Em poças de lama em chuvas de verão

A poesia é o logos da quimera
Letra utópica da realidade subjetiva
Que conversa entre rosas e morangos
Cerejas e algoritmos

Entre álcool e perfume
Da química a natureza

Vagando feito uma nuvem
Entre a objetividade e o desejo.

Cerejas e Cervejas

O mundo dos doces
Das cores e dos sons
Das ruas escuras
E mãos contrárias

O álcool e o perfume
A cereja e a cerveja
Os carinhos e as despedidas
A biologia e o concreto

A junção das palavras
Tese e antítese
Fotossíntese versus argamassa

E a poesia vai cosendo
Cruzando a linha
Atravessando seu algodão
Colorindo brancos vestidos.

Poesia Perdida

Guardo em meus arquivos abertos
As dores bem mais que as delícias
As derrotas muito mais que os momentos

Como a passagem do tempo
Que voa baixo com os versos
Para desvendar os olhos que molham

A poesia é uma cruz cristã
Não como símbolo sagrado
Mas como peso farpado

A rosa vem apenas depois
Por cima do féretro concretado
Se não chover
Num feriado de saudade.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Erótico

Duas metades de morango
Um para cada nome

Uma parte é doce
A outra é neutra

Sabor de vento
Provocação e intensidade

E pede que seja lento
Como se meu coração
Não tivesse em sua batida acelerada
A lentidão do tricotar dos versos

Dois anos para mim são dez
Dois dias são vinte

Cadê sua paciência?
O telefone engana
Apaga
Afoga

Falto das tuas mãos
Dos teus lábios todos
Teus lápis
Teus lapsos
Teus colapsos


Falto de ti.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Além da Poesia

Um poema tem muitos olhos
Mas apenas um endereço

Como uma carta
Que não se deixa guardar
Mas só quem recebe
Sente o perfume
Que ela não carrega
Mas exala

O cheiro está nas entrelinhas
No grifo imperceptível
Que grita aos olhos

Como um beijo que fica guardado
Quando o coração está fechado

Feito um pincel
Que pinta por dentro
Lindas e invisíveis flores.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sejamos Saudade

Adoro melão
Sei apalpá-lo
É preciso ser consistente
Porém macio sua boca
Para ser doce

Assim como as rosas
Ofertadas sem espinhos
Embrulhadas e enfitadas
Como o presente atrás das vidraças

Feito o barco que atravessa o rio
Quando cai a manhã
Apenas para ver o voo das garças

Não provarei amores proibidos
Desses que me destroçam
E depois que a hora grita
Guardam a culpa e eu a solidão

Estou há muito tempo sem um carinho no rosto
Sem uma mão navegando sobre as minhas costas
Ou um telefonema de saudade
Despertando alegria e paixão

Porque gosto de mesa de café bem posta
Com muito amor no embeber da manhã
Bolo, café amargo, pão-de-queijo

Beijos e mais beijos.

sábado, 16 de novembro de 2013

Castigo

E como se o meu corpo fosse a lona de um pneu
Vou me arrastando pelas estradas

Como se minha cabeça perdesse o caminho
Abre-se uma rua que parece um labirinto

E para os pneus tantos pregos
Quanto espinhos para os meus pés

E já não há compaixão ou amor
Apenas desespero e dor

Entre engrenagens enferrujadas
Sou a carne que se esfarinha

O som dos meus passos
Precipitam languidez e peregrinação

Esfolado como um cotovelo
Arrasto-me dentro de casa.

Outro

A insônia é a mão da iniquidade
Tocando a campainha do sono
É a consciência mastigada
Como lata de automóvel batido
Quando não há mais lanternagem

Preciso de um chassi novo
Quero cortar meu pescoço
E arrumar uma cabeça menos pesada

Vou rasgar todos os meus versos
Engolir todo esse choro

Retalhar toda minha carne.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Templo

Há muito tempo minha boca não toca outra
Passo as tardes entre meus canteiros
Tijolos, madeiras, vitrines
Cervejas e novelas

Busco inspirações em doces
Concretos e frutas abstratas
E meus versos patinam no barro

Tem chovido todos os dias
Apesar do sol

Todos partiram
Conseguiram significados
E esta insignificância?

Passou meu tempo
Vegeto dos meus tropeços
Morro das minhas insônias.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Xilofagia

Uma centelha pretende incendiar meus versos
Mais inventiva que uma fogueira
Estupenda como um forno a lenha

E vem de cima pra baixo
Levantando meus órgãos
Empurrando meu coração pra boca

Consome meu sono como madeira
Onde cravo com a lâmina inspirativa
As palavras em combustão

E nessa xilofagia
Com notas acentuadas de morango
Passo o café da minha poesia.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Sinais

Quem não gosta de um aceno discreto?
Adeus despistado...
Ou um olhar que te beija distante?

Gestos singelos são feitiços
Emergindo da cartola

Um piscar tão atinado
Que apenas o destinatário
Sabe a marca da cola do selo

Os pequenos gestos
Guardam os grandes segredos da paixão
Trazem dentro
Como em um poema
A dor e o prazer
Das pequenas coisas do coração.

Padaria

A padaria que foi do meu avô me abraça
Com a saudade do tempo feliz que vivi

Ainda há o calor dos pães
E o gosto do rocambole aqui dentro

Meu pai e minha avó
Os sonhos e os cafés
O balcão, o caixa de alavanca
Trim

A felicidade vinha no ar em fim de ano
Com todos os assados do natal
Tostando a pururuca
E o meu tempo dourado.

domingo, 10 de novembro de 2013

Poema de Amor

Amor é maternidade
O resto é sexo

Amor se faz com o gozo dentro
Como o concreto esculpindo na fôrma

Amor é o verso das moradas
É o vergalhão fazendo encruzilhada

Amor é a diagramação da cama
Na página da vida.

sábado, 9 de novembro de 2013

O valor das coisas

Uma casa vale por dez poemas
Um jardim
Mais que cem rosas

Um filho
Mais que cem poemas

Plantar uma frutífera
Mais que dez feiras

Uma conversa
Mais que mil mensagens

Um beijo
Mais que cem adeuses

E um amor
Mais que mil masturbações.

Poeta dos Tijolos

Para o poeta que vê pelo cinema
O maior apreço humano é a fabricação das moradas
Mais do que versos
Mais do que filmes

Bem mais que todas filosofias
Todas passagens
Todos os valores

A modelação da paisagem transforma a alma
Sem paredes não há poesia
Sem metáfora não há cinema
Sem igreja não há cultura
Sem centro cultural não há revolução

O tijolo é a página do jornal
É o apreço pela vida
O tijolão é o guardião do saber

Uma lajota bem assentada
Se transforma em duas
Uma viga cheia
Sustenta muitas passagens.

Para um Povo Rico

Cancelo meus pedidos
Corto a minha conta na tua esquina
No botequim perto de sua casa
Corto a relação com tua rua
Com teu pessoal e vou embora
Ainda que eu não queira

Deixo o meu jardim
Meu passarinho
O cachorro fujão
E vou por aí

Desbravar novas paisagens
Furar novos buracos
Em outras terras
Encher o horizonte de novas paredes
E viver entre elas

Molhar outros jardins
Fazer outras vitaminas
Plantar outras mandiocas
Em outros quintais

Porque a vida continua
Incerta e maliciosa
Perigosa e envelhecedora
E o que somos? Senão sobreviventes
A espera de uma salvação
Mas vivemos famintos
Em não saber poupar
Nem por que poupar
Ou o que guardar

Precisamos de arte
Estamos fartos de tanta ração
É preciso mais cinema na praça
Mais casas tombadas
Mais cafés
E restaurantes populares

É preciso alimentar o povo
E aumentar a obrigação do Estado
Até o Estado se tornar o próprio povo

É preciso fazer o rico ser povo
E povo ser rico
Rico de sabedoria
E pouca mercadoria pra ter que carregar

Mas muita poesia para ler, amar e gozar.


Luz do Dia

Luz nos meus versos revela
Imagens e movimentos como tela de cinema

Meu vício de esquina
Paisagem das minhas passagens
Razão de suspiros e esperanças

Passo com meu olhar por entre as frestas
Em busca dos sonhos que vestem minha busca
Símbolos silenciosos que endereçam meus versos

E imprime sua caligrafia fustigante e destorcida
Que caminha desconcertante com minha poesia

E que ela seja mais que o alimento
Para realizar os desejos guardados
Nas gavetas do mudo criado.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Confeitaria

Sou o confeiteiro das palavras
Meu silêncio é quase nulo
Porque sou um bolo
Ou uma torta
Ou o pão da hora
Quente e amanteigado
Como todos os versos que fabrico

Estou farto de tanto desejo
Que não se corresponde
E tanta culpa que se esconde
Como um pique da minha infância

Nada é mais poético que cafés e padarias
Como tradução fotográfica
De velhas poesias
Que modernizam as passagens

Estou perto do meu aniversário
E não tenho como partir a mim mesmo
Para dividir com o amor cada vez mais distante

Minhas palavras ganham novas inspirações
E minhas aspirações se assemelham
As de um poeta platônico
Que não toca aquilo que ama.

Passagens


Branco

Sábado é dia de branco
De brancas nuvens
Onde me deito sereno
E viajo como um anjo
Com as harpas do céu

Sábado é dia de sonhos
De hipérboles poéticas
E antíteses rebeldes
Querendo rasgar o peito

Sábado é dia de glacê branco
Com morango dentro
Dia de morrer de vontade
Porque domingo:

Fecham a confeitaria
Com toda sua delícia.

Fruta Vermelha

E se for verdade
Que este vermelho
Seja do morango dos meus versos
Num diálogo entre fruta e palavra
Que desaguam segredos e paixões

Desaprendi fazer café
Para passar no coador da esquina
Fervendo de vontade por esse morango
Provocante atrás da vitrine

Pobre de mim que saio de casa
Solitário e errante
Sem companhia para a vitamina
Que mistura as minhas ideias

Ponho a me afeiçoar pelas guloseimas
Da nossa vã padaria
Como o bom português que descendo
Porque só me resta o café
E este vermelho-morango
Que é a cor do meu presente.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Armadilha

As armadilhas do destino
Não precisam me pegar
Voo para minha tocaia
Sem medo da maldade
Ou tempestade

As coincidências estranhas
A paisagem

E coração a mil na estrada.

Nova Paisagem

Dedico a paisagem
A passagem dos olhos
Por dentro dos meus versos
Nas letras perdidas
Dessa poesia que busca encontrar

Desses poemas desencontrados
Com gosto de café amargo
Sem doce de poesia

Falta morango
Na torta da minha vida
Para fazer as curvas da minha estrada
E adoçar a delícia da caminhada.

Morangos

Minha boca com gosto de café
E vontade de morango

Mil cafés por um morango
Centenas de voltas por um pedaço
Torta tentação
Querendo minha boca na padaria

E na esquina onde havia parques
Numa saudade que aperta a infância
Por trás das vitrines
Derretendo através dos meus olhos
A cobertura de seu chocolate

E eu que sempre corri na vida
Tomo o amargo café lentamente
Comendo os pedaços doces
Que desatinam loucuras
Nesse pálido coração.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Maria da Saudade

terça-feira, 5 de novembro de 2013

21 Anos


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

TRILHO

Para dar fim ao jardineiro
É mais fácil esperar que ele se afogue
Dentro de todos os seus jardins
Até não suportar o cheiro das suas plantas

Pobre algoz 
Seria um prazer encontrar na tua maldade
No fim dos meus canteiros
O adiantamento tardio da passagem

Trilhei os melhores caminhos
Não temo deixar de sorrir
São muitos quadros e retratos

A ignorância quase cega
Não repara nas flores
Nem a falta que faz
O sujeito que água o alecrim.

Fogão a Lenha


Passo os dias entre jardins e tijolos
Misturando cimento ou terra
E aguando sonhos

Na vizinhança não há jardim
Apenas pedra e metal pesado

É isso contra meus versos

Passo dias longe
Com a poesia desenhando caminhos
Antes nunca percorridos

Minhas mãos sabem o ponto das coisas
E a poesia tem dessas preparações
Da hora certa do fermento encorpar o verso

Sou o forno do fogão a lenha
Que abraça com seu calor
Para fazer da letra, o doce biscoito.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A cor



As cores deste...
São versos estéticos
Que submergem com fôlego de peixe
a expressão do céu

Com seus tons de vermelho fogo
Cuspindo as labaredas das minhas andanças
E desenhando as palavras que a estrada trilhou

E vai num colorir de céu
Ruborizando de batom
Vermelho da Mantiqueira
Ouro de amor

Poesia das rosas
Rosa e Machado
Foice de jardim
Vendedor de flores
Coqueiros e jasmins

Vendedor de sonhos
De espaços e ninhos
João casa
Cupido de Barros

Verso de vida
Traço de verso
Diversos rumos
E destinos incertos


Poesia massa
Ferro e granito
Estrada e imaginação

Tecido peruano
Ideias e andanças argentinas
Sonhos bolivarianos

Poesia cor
Corpo verso
Copo e samba
Roda de fogueira
Lenha de fogão
Céu da paixão

Cor das chamas
De todos os chamamentos
De todas as poesias
De todas as flores
De todos os sabores
De todas as massas

De todas ruas.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Maria Fumaça | Rio Acima


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Como escrever um poema

Arriscar um risco
Desenhar o vento
O invento e o desnecessário

Suspirar as angustias
Aspirar as dores
Espirrar as alegrias

Colorir as árvores
Ir de alma com os pássaros
Mastigar os sonhos
Se alimentar de sensações

Apertar o peito
Afagar as nuvens

Traçar a emoção.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Tudo morre:
A casa
O caso
O casamento
As folhas
As árvores
Mas as estrelas não

Poetas são deuses das constelações
Desenham sol
Dormem em nuvens
E cantam todas as belezas
Que da luz provém

Da vida se leva apenas o vivido...
As músicas que sublimam
E os beijos que saltitam

Os discos arranham
Os livros mofam
Mas a poesia não
Ele é coisa vivida
Ela é cinema
Poesia é o movimento do prazer
A metáfora em si surreal
Para poesia não basta o verso

Tem que haver luz.

NaturezAzevediana

Encomenda de doces na confeitaria
Faz bater gelado o coração da poesia
E na cozinha onde se mistura os versos
Queimo a boca com o doce expresso

Assim já não posso escrever...
Consumi meus vinte poucos anos
Como uma lenha que virou cinza

As minhas cores estão na sua natureza
No sol que há na dança das palavras
Na correnteza do rio que desce...
Como quem foge dos seus versos

Agora sou um regador de jardins
Um jardineiro serafim
Confeiteiro das gramas
Cuidador de azaleias
Amante fiel do sol

Não verso mais histórias
Cavalgadas no intervalo
Entre o tempo romântico
E o moderno

Sou o jardineiro do agora

Desenhista do tempo
Impressor da geografia de Milton Santos
Nos versos libertários que planto

E esta é a minha canção.

sábado, 17 de agosto de 2013

Sol de Agosto

Sou de Janeiro
Sol do Rio
Sou o amante do sol
Sol pra vida
Toda estrada sou
Sol música
Sol luz

Sou verde
Como a braquiária
Que desdobra o leite

Sol vida
Sol Minas
Solcialismo

Sou de todos.

Estradas & SUAS Encruzilhadas

Quando estou na estrada
Sozinho e parceiro
Do meu pobre destino
Coloco Caymmi
Ou os meninos da esquina
Só pra soluçar de saudade
Que é bom pra estar poesia
Dessas duras poesias
Que me tem sido você
Vou mais louco pro bar
Ouvir as estradas
Que os meus companheiros
Também tem que cruzar.



Sol Dorival Caymmi

Ah as curvas de segunda-feira
Dobrando encruzilhadas
Estrada dentro
Serra e cidade
Pele e vontade

Mergulho em ti o prazer e a delícia
De dividir uma cama apertada
E ver o chuveiro massagear teu corpo
Com a porta escancarada

Guardando lembranças
Recordando as andanças
Que o destino acaricia em meu peito
Já não há mais vinho para mim
Nem sua dança
Nem frevo
Nem maracatu


Adeus, vivo sempre a dizer....
Adeus, pois não posso esquecer.



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sol de Oswald para Jandira de Murilo

Vem cá...
Vem ler

Não me visitar...
É como receber um poema e rasgar
A poesia é um grito
Não um desejo

Queria desejar e escrever
Mas preciso de sol
O sol de Oswald de Andrade
Preciso loucamente
De natureza fecunda
De orvalho gotejando lágrimas
De bocas inteligentes
Comendo dos versos amanteigados que fabrico

Preciso de mais luz que o sol pode me dar
Pra que meus versos busquem o oceano
Dando braçada pelos perfumes da vida

Por ideias geográficas e bucólicas
Misturar com as bromélias e com as cachoeiras
E estar como elas...
Ao sol...
Procriando Jandira´s de Murilo Mendes

Um sol pra bagunçar meus sentidos
Já que a poesia é um grito.

Arlindo Monteiro Daibert Lobato

Sou o poeta das estradas
Desenho suas curvas...
Corto encruzilhada dentro
As terras da Mantiqueira

Quero viver a imaginação profícua
Que sacudiu Monteiro Lobato

Entrar em seu enredo
Virar do avesso o corpo seco
E vagar com meus versos
A noite que cai sobre os ombros
Trazendo o aroma do assombro

Saltar da tela
Encenar a queda
Rasgar o filme
E cair pra vida
Como o artista Arlindo Daibert.
Xilogravura de Arlindo Daibert.

Paisagem

Quero tocar seus sonhos
Engolir seus sorrisos
Passear por tua dança
Desde o dia que o sol se pôs

Você e o sol
Duas grandes luzes

E como o sol
Foi também se por
Linda como o Tangará
Saíra-dourada
Colorida e voadora

Senta comigo e fita as estrelas
Venha beber o fermento da uva
Que descansa nossa rotina

Beije minhas lembranças
Enche meu coração de sol
(outra vez)

Corre a mão no meu rosto
Que minha mão trêmula...
Desenhará os versos do porvir.

sábado, 10 de agosto de 2013

Árvores

Falam os pássaros
Cantam os eucaliptos
Poemam as vacas
Assobiam as corujas

Na roça
A poesia se escreve assim
O medo das serpentes
O canto das vertentes
Que rasgam o solo
E fecunda o canto das flores

O canto dos homens
Das corujas

Ah o vento soprando as árvores
Chocalho de cascavel
Conversa das folhas altas
Zombando das nossas atitudes

As árvores no cair da tarde...
Parecem Deuses
Grandes Deuses
E eles riem em coro

São todos debochados.

Versos Íntimos

Se eu sofresse menos
Conseguiria talhar os versos
Desenhando corações
Nas copas das árvores

Beberia menos
Viveria mais
Mas eu me perdi
Não queira você esta dor

Já não posso ser como Drummond
Retalhado com suas palavras
Com estruturas de ferro

A mim é difícil inclusive
O próprio dia dos pais
Quando não tenho mais o meu
E não consigo ser o que deveria

As estradas são motivos torpes
Carne
Carne
Carne

O outro é carne
Picanha é carne
Lasanha tem moída

Carlos inclusive ainda é carne
E segue sendo devorado
Pelos amantes e revolucionários
Dos Clubes de Esquinas
Que cantam através de um novo Brasil

Ah se eu não tivesse tropeçado tanto
Por tantas desesperadas noites...

De amor
Álcool
E tantas outras mazelas da carne

Ah se eu pudesse ser como o Carlos
Esse sujeito sisudo de Minas Gerais
Com sua fazendinha
E apartamento no Rio de Janeiro
Cantado Minas
Saudando o Niemayer
Desenhando as curvas
Que tecem a poesia

E ainda tem aquela praia
E pra ele
A areia não limita o oceano.

sábado, 13 de julho de 2013

Sol

Esse abraço é um sol
Que me deu luz nesse momento precioso
Esses braços abertos
Dando vontade de vida

Parece até um poema
É a graça gritando seus mares
Soprando seu vento
Colorindo minhas lembranças

Cheiro de Serra de Vargem
De Campo Grande
De bairro operário

A vida é uma cachoeira violenta

Adoro suas correntes.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Retalhos

Como não te amar desde então?


Seu jeito urbano estrangeirado de enxergar as coisas

E por razão estranha sobre as gentes

Um olhar escondido de mirar a paisagem

De se opor as minhas investidas



Desafiei seus sentidos

Abrindo passagens

Derrubando portas

E sem repor dobradiça

Minha poesia morreu de dor



Saí gritando descontente

Engasgando saudade atravessada




O relógio continuou a rodar

Ciclicamente remontando o tempo

Voltei para derrubar mais portas

E nestes corredores percorridos

Onde as portas ruinam

Não posso consertar




Mas continuo rasgando

E rasgado

Estou neste instante...

Retalhado.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ibitipoca


Ibitipoca e suas curvas
Esse topo delicioso do mundo
Um desses lugares magníficos do mundo
Seu comércio de maravilhas

Seus caldos... suas caldas
Seus casos... suas encruzilhadas
Seu perfume de candeia queimada
O segredo do seu Pão-de-Canela
A água que retorce pedras
Gritando orgasmos em suas decidas
Varando seu parque com violênca
Feito um lobo por sua cria

Lugar infinito que arranha as nuvens nessas Minas Gerais
Cavalgado pelas tropas de Auguste de Saint-Hilaire
Poeta do verso alto do Rio Preto
A Serra onde a Pedra Poca
Quando o vento traz o choro mais emocionado do céu.


Guillain-Barré

Vem cá
O que você quer mais?

O que mais?
Meu silêncio?
Já lhe dei.
Todas minhas esculturas?

Dou tudo
Todos os meus pedaços
Cada retalho de mim

Ou inteiro
Tudo
Mudo
Sonho aqui dentro contigo
Todos os dias do mundo
Morro mas não morro
Estamos aqui nos corações
Que buscam
E que lutam
Para que seu amor vença
A tristeza de não viver.

Guillain-Barré

Sementes

 Se meu coração não me trair
O fio do casulo endurece agora
Neste instante

Ainda que lentamente
E tocará sua boca

Como a cidade
Ou uma roça
A nutrir nesta terra
As sementes que  rasgam o chão.

Tragédia Grega


O verde mundo que se abre maduro
Trinca seu corpo
Quando suas placas separam

Como as barragens e todo concreto
Com seu ferro-velho que a terra come
Até romper seu tempo

O dique se esvai com um sopro do céu
Para banhar em lágrimas
A minha colônia.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

COLÔNIA DE SÃO FIRMINO


A igreja submersa
Os colonos espalhados
A Nova Colônia fragmentada

Os pescadores contando casos
Lembrando as histórias
Os caminhos e as encruzilhadas

As festas da igreja
As fogueiras e as paixões

Estradas que foram apagadas
Mas que resistem nesses versos
Como o cemitério não submerso

Toda aquela gente
Todas aquelas almas
E suas casas mergulhadas a cruz

O lugar do pecado
Emergido sob os braços de cristo
Afogado em suas mágoas.