segunda-feira, 3 de julho de 2017

VELHAS PAISAGENS, ETERNAS PASSAGENS

O cheiro amadeirado do vinho
Sua embriaguez onírica
Sensação de paz e poesia

Nenhum poeta vive tão poeta
Sem uma casa esculpida numa serra
Um amor latino e um jardim na alma

Por tocar a erudição do orgasmo
E apertar o pedal do jipe
Pelas estradas estontes de Minas

Acender os gravetos
Fazer a gaveta da lenha
Dourar o alho na panela de pedra

Decorar as paredes
A vida
Transcender as paisagens

E traçar os versos dos traçados
Pois para haver poesia
Se faz necessário um vilarejo
Com cemitério, comércio e obreiros


Eis o traço do poeta dos poetas.

sexta-feira, 17 de março de 2017

O ferro

Murcham as flores
Ficam espinhos
Quebram-se os cabos
Nascem outros roxinhos
Desfalece a cunha

Resta o machado.


Mandacaru

Versos ao vento
Versus saudade
Vão se os alaranjados de espatódea
Com os últimos ventos do verão

O amarelo das aleluias sutis
Numa dança com os tons de lilás e roxo
Desabrocham das quaresmeiras

E eu sigo cactos.



quinta-feira, 16 de março de 2017

Flores da Quaresma


As cores vivas das flores de quaresma
Vibram em mim lembranças cheirosas

Cada canto das serras daqui
Cada onda das praias daí
Nossos vinhos
Teu ciúme louco
Esse teu charme descolado de militante de esquerda
Delicada como a tez da flor do campo
Mas de fibra como uma loba de serra
E eu nunca te escrevi um poema
Talvez por ser a própria poesia

O religioso em você é mágico
Algo que transcende e envolve
Como um edredom macio no inverno

Hoje te guardo
Te autografo
Tatuo você na minha letra.






quarta-feira, 15 de março de 2017

Machado

Um bom machado
Carece de uma boa cunha
Para travar seu cabo

Depois é que se faz o fio
Com a lima amarga
Docemente em sentido único

Dança de floresta e fundição
Encontro de magma e vida
Fervura e botânica.

Obsolescência Programada

O poeta fora de órbita
Distante do seu tempo
Remenda suas dores

A falta de um pedaço de história
É muito mais mentira
A verdade é saturação

Tornamo-nos obsoletos
Eis o objeto que somos
Derretemos no tempo

Como cristais em tela
Não suportamos quedas
Fizeram-nos substituíveis.


segunda-feira, 13 de março de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Meu mel carnavalizado

Onze luas
Cinco amores
Da luz a sombra
Meia centena de cachoeiras
No sumidouro da paixão

E pelas estradas
O confete de carnaval
Caindo em flores de espatódea
Numa batalha laranja de arder os olhos

Onze luas
A sós
Sóis radiantes entrelaçados.

Poema Único

O poema que não foi escrito
Suplica um verso forte
Prescrito

Reescrito vezes mil
Poema casto
Poesia sorte

Acerta o tom
O som
E a textura primorosa
Dessa delícia poetizada.


Confete de Espatódea


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DENTE DE MINAS

Minas é dentro da gente
Serras desnorteantes
Paisagens oníricas
Jardins do céu

Minas fala por seus vilarejos
Homens tecedores de casas
Mulheres encantadoras de sabores

Há mais numa vila de Minas
Que em todas as ruas de Paris
Mais fermentação que toda a França
Um tanto mais de florestas que toda Europa

Temos Ouro Preto também

Mais rios que o velho continente
Minério pra armar dez exércitos romanos
Minas é Roma
Minas é o centro do mundo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DORES

A geografia topa comigo nas galerias
E a poesia ecoa com desculpas eternas
O passado massacra meus versos

Ressentimento arde forte nas minhas entranhas
A dor ferina me rasga a alma
Com reservas descalço em espinhos

Apreensão de todas as formas deformadas
Cabeça gira feito um motor potente
O regionalismo desce por veredas da face

Insônia late como um cão raivoso
Família e sonhos... perda de tudo
Filhos: destino... véu

Luta inesgotável
Fraqueza

Culpa.

ArTesão

Poemas Concretos
Série - vasos escritos com azulejos portugueses.
feito a mão -  Ely Manoel - horas vagas das tardes juizforanas












quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Giz


A chuva pode apagar o giz
Carregar o pó
Apagar a gente

Mas nunca poderá rasgar o presente.




UMA SÓ ALMA

Corre pelos meus braços obreiros
uma vontade súbita de um abraço forte

nosso vinho de garrafão
a pururuca de uma arroba com a maçã à boca
rabanada dormida em cama doce
e a mesa colorida dos frutos da primavera

A gente se olhava
Se admirava
Mas num dia 15 de dezembro
Depositou seu espírito em mim e se encantou

E me restou seguir a vida
Que na verdade é a dele
Porque somos um só
Ele vive dentro de mim
Seu espírito é o meu
Seus amigos
Seu carnaval
E eu virei pai de mim mesmo.



DOCES

Ariquemes tomava café sem açúcar todos os dias na confeitaria do centro da vila.

Mas diferente do seu café, a vida lhe era doce como cada bolo coberto de confeito na gôndola.

Na esquina de frente à padaria havia um departamento de tecidos de fino corte e uma atendente de toque delicado que vendia e dobrava roupas e a elas se misturava, como manequim, modelo e sutileza.

Ariquemes acompanhava seu café amargo com olhar pujante a cada movimento doce da moça e um dia arriscou um corte. Para sua surpresa, Ana o conhecia bem mais que este imaginava. Apesar de noiva, a moça imprimiu junto à balconista da confeitaria uma pequena biografia sobre o moço. Olhares atravessadores, atrevimento, bicho solto.
- Bom dia Ariquemes. Não põe açúcar no café? Como consegue?
- Sou de Poços de Caldas, no Sul de Minas. Lá não fervemos a água e aprendemos desde novo degustar o amargor delicioso do café. É uma arte.
Trocaram telefone. 
Palavras. 
Poemas. 
Fonemas. 
Parábolas. 
Bilhetes. 
Suores. 
Perfumes. 
Noites proibidas. 
Tomaram café amargo e sorriram.

Ana se casou com o noivo.


E toda vez que senta à mesa de uma cafeteria responde que não precisa de açúcar. 
Tampouco adoçante.




sábado, 10 de dezembro de 2016

Geografia da Emancipação

 Mapeemos nossas dificuldades.
Entender a fundo nossas deficiências, os nossos erros, o motivo de todos os nossos atrasos. As fraquezas de nossa gente. Mapeemos também nossos acertos. Nossos progressos democráticos, nossos saltos de qualidade.

Tabulemos.

Despertar no sujeito uma geografia localizadora.
Sintonizante.
Focada no pertencimento cultural, no fortalecimento regionalista, na construção da identidade/povo.
Uma geografia que defenda a ilha do conhecimento, a escola, este ambiente científico cercado de tantas experiências locais: a família, o comércio e a vida na sua cultura vegetal e inorgânica.
A geografia é a voz da tecnologia. O mapa, a busca, a sintonia, a lógica e o funcionamento civilizatório. Sua expansão. Sua permanente linguagem: pertencimento.

Os mares.
Os males.
O sentimento estelar.

A geografia é o despertar da razão.

O MALANDRO

malandro anda no caminho certo
é perseverante 
trabalha duro
dorme pouco
bebe e sabe sambas
é bom de beijo
bom conhecedor dos sonhos

tem sua barca
navega preciso
não fica na curva

tem samba
canta gírias
é ágil
ligeiro
ama a terra
sabe jardins

é doido
descolado
audaz

caminha
corre
mergulha
viaja

acende lenha
destila

fermenta noite
seleciona cerejas

malandro é lobo
não se faz de bobo
pede água
não espera que ofereçam








Brassagem

lugar-pai arrimo
Não não era poesia
Mas poderia
Não fosse ela tão casta
E eu tão puto

Rios e filhos
Ruas imensas
Contradições e enguiços.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ely Rosa Machado (Pai)


Plástica














FLOR DE MANDACARU - CASA DA SERRA







CONCRETOARTE














Poema Solteiro

Solteiro e desalojado

Ao mundo
Pro mundo
Do mundo
O fim do mundo

O mundo é o mundo
Imundo
Risos

Mundo cão

Canino mundo.

O SUBIR DA CASA

Sapatos
Pernas
Cozinha
Living
Lava
Cama
Vou erguendo a casa

Fundações esteiram

Pernas de concreto 
Sobem pelos estribos amarrados
Entrelaçados...
Poemas concretos estruturais
Geométricos e perfeitos
Cada pedaço do ferro que o desenha

Cada saco de cimento
A pedra
O pó
A carne

O sangue
...



.

A VIDA É FLOR

A vida é flor
Ainda que o pé beije espinhos

É sorriso e sol
Cachoeira
Álcool

Música de acampamento
Volante firme
Disposição e felicidade
Paixão por água gelada
Bom folego

Piadas de autobulinação
Corações da infância
Democracia como razão

E um amor sem lei pra ser feliz.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

FENDAS

Simplesmente contigo sou
Sou carícias
Mãos dadas
Todos os dias são poucos
Vontade de letra
Sensação de poesia nascente
A brotar das minhas fendas enferrujadas

O orvalho goteja noite a dentro
Faz sorrir a manhã
Passo um café amargo
Já que doce me tem sido as águas.



QUERER

 NÃO TE QUERO MAIS
POSTO QUE TE QUERO MUITO
PARTA. NÃO PARTA!
NÃO VENHA. ESTOU ESPERANDO
DESAPAREÇA. CADÊ VOCÊ?
TE ADORO
TE ODEIO

O CAOS SE INSTALA E EXPLODE
AS EMOÇOES DAS ARDENTES SENSAÇÕES
NÃO HÁ DIFERENÇA AINDA QUE MADURO
QUANDO EMERGE NA LAREIRA DO CORAÇÃO
AS BRASAS CONVALECENTES
PAIXÃO É ESTADO DE LOUCURA

É FREBRE EM TODAS AS IDADES.


ASSIM ASSADO

Porque era impossível te quis
Fosse possível, não
Não fosse loucura não me seria nada
É impossível querer o perto

Paixão nasce de curvas acentuadas
De descaminhos e desencontros
Do inalcançável intocável tortuoso
Ou é chato como um capítulo decifrável

A paixão é a imprevisibilidade
É o susto, o vulto, involuntário
O descontrole
Como um vento em dia de chuva
Que abre o céu com um sopro
Pra deixar sorrir o sol

É enxurrada que avoluma a cabeceira
E engrossa com violência o véu do rio que cai
O excesso e a falta

Penumbra e luz.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

As 15 Melhores Músicas Brasileiras - Ely Manoel - Seleção


Apresento minhas seleção das 15 melhores músicas brasileiras:


Casinha Branca – Peninha
Nós Dois – Tadeu Franco
Clube da Esquina 2 – Flávio Venturini
Oceano – Djavan
Caravana – Geraldo Azevedo
Terra – Caetano
Gota D'agua  - Chico
Jardim da Fantasia – Paulinho Pedra Azul
Romaria – Renato Teixeira
Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores – Vandré
Travessia – Milton Nascimento
Águas de Março – Tom
Eu Sei que Vou te Amar – Vinícius
Amor de Índio – Beto Guedes
O Mundo É Um Moinho - Cartola

segunda-feira, 30 de maio de 2016

CORES


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Mais Lenha



São felizes as casas

Que a cozinha é na varanda




As crianças caçam a lenha

Um amigo aninha os gravetos

Alguém dedilha os feijões




Uma tia traz a galinha

E o coração bate forte o milho

Até a gente virar fubá




A fumaça avermelha os olhos

E faz defumar emoções.


....

Este poema ficou em 3º Lugar no Concurso latino americano do IMEL.

Nós e o mundo



No mundo dos poetas...

Não há fronteiras

Os versos quebram barreiras

Metáforas desfazem as linhas da geografia




No mundo dos poetas...

Assim como o sol perfaz

A delicia da broa é a divisão




No mundo dos poetas...

A linguagem é o humanismo

O nativo

O colorido

O sublime primoroso utópico




No mundo dos poetas...

Só há portas para o sono

Separando o real do onírico

Escancarando os portões da fantasia.


....

Recordações



Quando pinço as delícias da memória

Vejo que os versos são daquele tempo

Benfica de Minas

Roda de bicicleta

Muros baixinhos

Portões sem cadeados




E talvez por não haver barreiras

São deste tempo as amizades apertadas

Que acendem ainda

As brasas dos nossos churrascos.




.............................

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Minha Passárgada

Da minha janela azul
A serra é inteiramente minha
Sua capela histórica se torna ainda menor
E mora dentro da minha paisagem

É um quadro em movimento de nuvens
Que descortinam nuances da natureza

Acordar aqui já me valeu a vida

A luz do verso tem um coleiro ao fundo
Pássaros e calangos tomam café comigo
Quando a tarde vem deitar o dia
É o trinca-ferro que vem chamar a noite

Leio até me arderem os olhos
Os tratados da minha geografia
Alguma parca poesia pequena
Que precisa de pouco a dizer do grande mundo

Sento solitário na parte alta da casa
E observo o vento e a dança dos arbustos
Algum tucano rema deslumbrante
E corta o azul do céu

E assim se esvai o dia
Alguma cerveja
Algumas cerejas
Pão-de-canela
Amasso um queijo

Sou um poeta das massas
Das pequenas e das grandes massas
Do minimalismo estético
À exuberância bucólica

Das viagens e das comidas
Em seus amplos sentidos.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Passos

Na porta do sobrado
Um bilhete escrito com pedras
Alguma fotografia cor do poente
E os degraus abraçando nuvens

Engatinhando sensações
As paredes tremulam:
Encontro do logos vida com paisagem
Despertando-me a licença
Que se entrelaça em minhas entranhas
Fazendo minar sangue dos meus olhos

Sua da minha carne
Todo o cansaço do meu coração
Deito numa rede
Desenho este sobrado

E recolho as folhas da primavera.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

PEDREIRO E POETA

Com o concreto tenho feito meus versos
Sob a abstração das ideias e dos pensamentos que voam
Acorrentando imagens e eternizando ventos
Rebocando o suor e suando cimento

Deixei um pouco as palavras na gaveta do peito
Tirando delas as paredes rabiscadas
E arquitetura e verso se somam e se contraem
Numa dança simétrica que rasga a paisagem
Fazendo brotar flores, cercas e o pouso da escrita
Dando forma ao verso tocável
Que guarda a poesia num relicário de serra.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015