Há cem anos bradava o vento
com febre, fuzil e tinta moderna:
A Influenza ceifava em silêncio,
o tenentismo marchava entre sombras,
e a arte, em surtos de cor e ruptura,
rompia o jugo do velho Brasil.
Que era a modernidade naquele instante?
Que imagem tínhamos de futuro,
quando nosso capitalismo manco
ainda mancava entre a senzala e o latifúndio?
Cem anos passaram.
E as consignas?
E os sonhos emoldurados por Mário e Oswald?
Onde repousam agora?
Este chão imenso e farto,
entre rios indomáveis e serras poéticas,
fez de nós, aos trancos e barrancos,
um colosso tropical —
não pela política, mas pela persistência da paisagem,
não pelo plano, mas pela força da terra.
Sim, entre espasmos e epifanias,
erguemos Brasília —
palco de linhas e esperanças,
nossa Atenas concreta,
filha do traço, do verbo e do ferro.
Na arte, tornamo-nos espelho e pergunta.
Na política... patinamos.
Muito.
Erramos o mapa,
ignoramos o chão,
governamos mal um milagre de território,
e ainda assim, multiplicamo-nos.
De trinta milhões,
saltamos aos duzentos.
Sem saber quem somos,
mas sendo muitos.
Enquanto isso, a China,
antiga e paciente,
tornou-se a máquina do mundo —
erguida em silêncio,
tecendo fios de aço e dados.
E nós?
Ainda à margem.
Ainda afogados
na velha opinião formada,
sobretudo.