quarta-feira, 27 de outubro de 2021

CEM ANOS DE ILUSÃO

Há cem anos bradava o vento 

com febre, fuzil e tinta moderna: 

A Influenza ceifava em silêncio, 

o tenentismo marchava entre sombras, 

e a arte, em surtos de cor e ruptura, 

rompia o jugo do velho Brasil.

 

Que era a modernidade naquele instante? 

Que imagem tínhamos de futuro, 

quando nosso capitalismo manco 

ainda mancava entre a senzala e o latifúndio?

 

Cem anos passaram. 

E as consignas? 

E os sonhos emoldurados por Mário e Oswald? 

Onde repousam agora?

 

Este chão imenso e farto, 

entre rios indomáveis e serras poéticas, 

fez de nós, aos trancos e barrancos, 

um colosso tropical — 

não pela política, mas pela persistência da paisagem, 

não pelo plano, mas pela força da terra.

 

Sim, entre espasmos e epifanias, 

erguemos Brasília — 

palco de linhas e esperanças, 

nossa Atenas concreta, 

filha do traço, do verbo e do ferro.

 

Na arte, tornamo-nos espelho e pergunta. 

Na política... patinamos. 

Muito.

 

Erramos o mapa, 

ignoramos o chão, 

governamos mal um milagre de território, 

e ainda assim, multiplicamo-nos. 

De trinta milhões, 

saltamos aos duzentos.

 

Sem saber quem somos, 

mas sendo muitos.

 

Enquanto isso, a China, 

antiga e paciente, 

tornou-se a máquina do mundo — 

erguida em silêncio, 

tecendo fios de aço e dados.

 

E nós? 

Ainda à margem. 

Ainda afogados 

na velha opinião formada, 

sobretudo.