quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Sinfonia dos Sonhos

A vida —  

essa orquestra sem maestro —  

começa em um compasso descompassado  

de berros, tetos e páginas em branco.


Estudar é cavar poços em desertos  

onde às vezes brotam girassóis  

com doutorado em luz.  

Pensar é tocar gaita em espelhos partidos,  

onde os reflexos discutem Freud  

enquanto você só queria dormir mais cinco minutos.


Divertir-se:  

ah, isso sim é dançar nu  

com os pés em brasas e os olhos na lua,  

é rir sem motivo no meio do mercado,  

e fazer careta pro tédio que te observa do banco da frente.


A poesia é um sabiá que canta Gonzaguinha no rancho.

Filosofar é tentar dar nome à fumaça.  

Politicar é xadrez com peças invisíveis  

em que você às vezes é rei,  

às vezes, peão…  

e quase sempre, tabuleiro.


Amar é nadar solitário em cachoeira gelada  

e esquecer que amanhã tem imposto pra pagar.  

É construir casas com tijolos de abraço,  

mesmo quando o cimento da rotina insiste em rachar.


Cantar —  

é sussurrar acordes às paredes  

só para ver se elas choram.  

Pintar quadros despretensiosamente  

é como fazer café ruim  

só para conversar com alguém.


Resolver burocracias complexas  

é desatar nós em cordas que ninguém vê,

mas que amarram o seu salário no fim do mês.  

Cuidar de si é encontrar, entre a papelada,  

um bilhete com sua própria letra dizendo:  

“Calma, você ainda está aqui.”


E quando tudo enjoa —  

até o sol parece reencenado —  

é hora de morrer um pouco:  

não no corpo,  

mas no excesso.  

Morrer antes de virar estatística,  

antes que seja tarde para esquecer  

que, por um breve instante,  

você soube o que era ser feliz.  

E foi.  


Talvez ainda seja.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

UM POEMA EM TRÊS ATOS

 ATO I – SILÊNCIO E VÉU


A luz da ribalta acende sozinha.  

O teatro está vazio, exceto por mim,  

sentado na poltrona do meio,  

com os olhos cheios de história  

e as mãos cansadas de eleição e verso.


As cortinas se abrem com um gemido antigo,  

como quem acorda um tempo esquecido.  

Do lado esquerdo do palco, entra Deus,  

com túnica feita de vento e barro.  

Do lado direito, o Diabo,  

com gravata vermelha e sapatos caros.


No centro, uma cadeira vazia.


— Começa o julgamento, diz uma voz sem dono.


ATO II – O DEBATE


DEUS (em tom sereno):  

“Este homem é feito de carne,  

mas viveu como se fosse fênix.  

Não pregou em púlpitos santos,  

mas discursou nas esquinas da polis  

com a ousadia dos profetas.”


O DIABO (rindo com fumaça):  

“Ah, mas também bebeu dos cálices errados!  

Flertou com o caos, dançou com o ego,  

e muitas vezes confundiu amor com salvação.”


DEUS:  

“E não é isso ser homem?  

Errar com poesia?  

Gritar justiça em tribunas surdas?  

Ely não traiu a vida —  

Ele a espremeu até o bagaço!”


DIABO:  

“Ele quis demais!  

Poder, beleza, rebeldia, fé…  

Achava que podia conciliar o barro com a chama.  

Foi político e poeta.  

Mas não se pode servir a dois senhores!”


DEUS (erguendo o olhar):  

“E quem disse que ele servia?  

Ele combatia.  

Questionava.  

Transformava trincheira em altar  

e palanque em confessionário.”


A cadeira ao centro, antes vazia, agora brilha.  

É o lugar do Julgado.


Mas eu continuo na plateia.  

E percebo: o réu sou eu, sim — mas também sou o júri.


ATO III – O VEREDITO


O teatro some.  

Agora sou só eu  

— Ely Manoel Machado —  

caminhando por uma estrada de chão batido,  

com a Constituição em um bolso  

e um poema amarrotado no outro.


Deus e o Diabo?  

Sumiram como fumaça de incenso.


Porque, no fim,  

a sentença é viver.  

E a absolvição?  

É não se calar.


A câmera se afasta.  

A trilha é Adélia sussurrando,  

Drummond no rádio,  

Castro Alves batendo o pé.  

E as serras de Minas, eternas,  

acendem suas candeias no horizonte.

O CANTO DAS ERAS E DOS HOMENS

 "No princípio era o Verbo…"  

e o verbo era vinho,  

e o vinho era sangue,  

e o sangue era vida —  

vida em abundância,  

mas também em excesso,  

como Deus mandou e Byron bebeu.


Fui feito de barro,  

mas me recriei em brasas,  

quando li Dante e desci aos círculos  

que a cidade finge não ter.  

Vi Fausto trocar sua alma  

pelo instante eterno de um desejo,  

e pensei: “Quantos de nós já não vendemos  

a eternidade por um cargo comissionado?”


"Vês tu aquela estrela que fulge no alto?"  

Era a nau negra de Castro Alves,  

que ainda hoje ecoa na alma do Brasil:  

"Senhor Deus dos desgraçados!"  

— mas quem escuta?


Traguei versos como se fossem absinto,  

“vai, miséria, vai-te embora…”,  

e me embriaguei com Augusto dos Anjos,  

com suas vísceras expostas  

e sua alma toda em carne viva,  

onde até o amor era ciência  

e a morte, uma velha conhecida.


Oswald me chamou à mesa:  

comi o pau-brasil cru,  

com tempero de civilização,  

e me lambuzei na antologia da antropofagia —  

pois só digerindo o mundo  

poderíamos, enfim, cuspir poesia.


Sou de Minas, onde o erótico  

se esconde entre montanhas.  

Drummond me deu um poema  

com cheiro de mulher nua e fogão a lenha:  

“amar se aprende amando”,  

e que outro ofício teria mais sentido?


E foi então que Adélia me abriu os braços  

como se fossem janelas para dentro,  

e me disse:  

“Ser poeta é quando Deus vem visitar,  

mas tira os sapatos para não assustar o chão.”  

Deitei no colo dela,  

e soube que o mundo  

é um quintal com galinhas,  

e ainda assim sagrado.


Este é meu testamento.  

Minha oferenda.  

Minha missa laica.  

Minha espada e minha rosa.


Aos que vierem depois,  

que digam:  

“ele foi um homem em brasas,  

com alma de fonte.”  

E mesmo ferido,  

nunca deixou de erguer a taça  

e brindar à vida,  

com todos os seus amores,  

suas ruínas e renascimentos.


Amém.  

Saravá.  

Salve.

A TEORIA DA PROSPERIDADE

A SEMENTE E O VENTO 

Princípios da Teoria da Prosperidade 

 

A prosperidade não nasce do cofre, 

nasce do chão. 

É da terra molhada, do vento livre 

e da luz que insiste em atravessar as nuvens.

 

Toda teoria que ignora a natureza, 

torna-se concreto rachado. 

Toda economia que sufoca a liberdade, 

vira algema dourada. 

E todo progresso sem alma, 

é só ruído e poeira.

 

A Teoria da Prosperidade brota como semente teimosa 

na fenda do asfalto. 

Ela entende que liberdade é solo fértil, 

que ecologia é o coração batendo em verde, 

e que o pragmatismo econômico 

não é acúmulo — é equilíbrio.

 

Não se trata de viver com menos, 

mas de viver com sentido. 

O rio não precisa de moedas, 

precisa de margens livres. 

O povo não precisa de promessas, 

precisa de políticas com raiz.

 

A verdadeira riqueza 

é quando a cidade conversa com o campo, 

o poder ouve o silêncio das florestas, 

e o lucro anda de mãos dadas com a justiça.

 

Essa é a fundação. 

Liberdade como raiz, 

ecologia como galho, 

pragmatismo como fruto. 

E a vida — a vida como árvore inteira, 

firme e generosa,

que dá sombra, alimento e direção.

 

O TEMPO DA TERRA E O GRITO DA AMEBA 

Antes da palavra, 

houve o sopro. 

Antes da ideia, 

houve o barro.

 

A Terra girou por bilhões de anos 

sem que ninguém a chamasse de casa. 

O tempo não era medido em relógios, 

mas em erupções, geleiras, astros cadentes 

e silêncios abissais.

 

Então, da água salgada, 

ergueu-se a primeira ousadia: 

uma célula que pulsava como quem sonha. 

Ameba — 

a mãe anônima de tudo.

 

Vieram os trilobitas, os peixes com escamas de coragem, 

os répteis alados, os dinossauros gigantes como deuses de carne. 

Mas nenhum ficou. 

Todos se curvaram ao tempo.

 

Depois, os primatas… 

os macacos erguidos com olhos de dúvida, 

mãos de futuro, 

e fogo na mente.

 

E o hominídeo olhou o céu — 

e chorou. 

Porque soube que, 

ao contrário do tigre e da rocha, 

ele morreria lembrando.

 

Assim nasceu o mundo humano: 

um amontoado de tentativas, 

de pedras lascadas, 

de corpos enterrados com flores, 

de rituais para os trovões 

e medo da própria consciência.

 

Somos feitos de tempo geológico, 

de poeira de estrelas e instinto de eternidade.

 

A prosperidade começa aqui:

no reconhecimento da nossa origem, 

da nossa fragilidade, 

e da herança que a vida nos deu — 

a capacidade de transformar a dor em arte, 

a fome em técnica, 

e a solidão em comunidade.

 

Não há teoria do progresso 

sem reverência à ameba. 

Não há futuro que negue o passado da Terra.

 

DAS TRIBOS AO CAPITAL: A TRAVESSIA DA HUMANIDADE 

No princípio, fomos tribo. 

Vivíamos sob o teto do céu e o chão da fartura, 

colhendo o que a Terra ofertava 

com a gratidão de quem ainda sabia ouvir os ventos.

 

Era o tempo do comunismo primitivo, 

em que nada era de ninguém 

porque tudo era de todos. 

O fogo era coletivo, 

o medo também. 

A partilha era instinto, 

não ideologia.

 

Mas os grãos pediram celeiros, 

os rebanhos pediram pastores, 

e os homens — chefes.

 

Nasceu o escravismo, 

o tempo das correntes douradas, 

onde um homem era dono do outro, 

e a mão que construía palácios 

não podia sequer escrever seu nome.

 

As civilizações se ergueram em cima de espadas e sal, 

de corpos calados, 

e sonhos emparedados. 

Egito, Grécia, Roma — 

nomes imensos para uma dor ainda maior.

 

Veio o feudalismo, 

e a terra se tornou a medida da vida. 

Nas colinas da Europa e nos sertões do mundo, 

o senhor mandava, 

o servo obedecia, 

e a fé justificava a ordem das coisas.

 

Mas a roda não parou. 

As máquinas gritaram nas fábricas de Londres, 

e o vapor se ergueu como sinal de um novo tempo:

o capitalismo — 

veloz, criativo, faminto. 

Criou conforto para uns 

e abismos para muitos.

 

Então surgiu o socialismo, 

não como inimigo, 

mas como espelho. 

Um grito de justiça, 

um projeto de igualdade, 

uma tentativa de equilibrar o que o capital desequilibrou.

 

Esses sistemas não são monstros em guerra. 

São fases. 

São expressões da nossa busca por sentido, 

por justiça, 

por sobrevivência e transcendência.

 

A prosperidade não rejeita a história. 

Ela bebe dela. 

Compreende os caminhos, 

os desvios, 

as sementes lançadas na areia e na lama.

 

Porque só quem entende de onde veio, 

sabe onde não quer mais voltar.

 

CAPITAL E SOCIAL: IRMÃOS EM DISPUTA, PARCEIROS NO DESTINO 

Dizem que o capitalismo e o socialismo são rivais, 

inimigos jurados na arena da história, 

como fogo e água, 

como norte e sul.

 

Mas a vida, que é feita de paradoxos, 

ensina que opostos, muitas vezes, 

são metades de um mesmo todo.

 

O capital é movimento, 

é risco, invenção,  

é o impulso do homem em criar, explorar, acumular. 

É a engrenagem que gira sem pedir licença, 

às vezes cega, mas sempre veloz.

 

O social é memória, 

é freio e abraço. 

É a lembrança de que ninguém prospera sozinho, 

de que a dignidade não pode ser prêmio de poucos, 

mas direito de todos.

 

Onde o capitalismo concentra, 

o socialismo redistribui. 

Onde o capital avança sem olhar para trás, 

o social exige pausa, reparo, justiça.

 

E se um, sozinho, cai no abismo da desigualdade, 

o outro, isolado, afunda na estagnação.

 

São forças que se tensionam, 

mas também se equilibram. 

Como as marés. 

Como o dia e a noite.

 

Na Teoria da Prosperidade, 

não escolhemos trincheiras — 

construímos pontes.

 

Entendemos que a liberdade econômica precisa de responsabilidade social. 

Que a inovação deve caminhar ao lado da inclusão. 

Que o mercado precisa de alma, 

e o Estado, de limites.

 

Prosperar é integrar. 

É fazer do conflito uma dança. 

É transformar a luta em harmonia.

 

Porque o futuro não será de um ou de outro — 

mas de quem souber somar.

 

O PÊNDULO E O LIMITE: ENTRE O MERCADO E A MÃO DO ESTADO 

Toda liberdade carrega um risco: 

o de tornar-se tirania de si mesma.

 

Assim é o mercado — 

nascido da criatividade humana, 

do querer vender, comprar, trocar. 

Mas quando cresce sem freio, 

se impõe como dono da alma, 

e não apenas da feira.

 

Quando o lucro se torna altar, 

sacrificamos a ética na fogueira da eficiência. 

Quando tudo vira mercadoria, 

até o humano se torna descartável.

 

O capitalismo excessivo — 

quando devora o próprio contrato social — 

acaba por acionar seu antídoto natural: 

a economia planificada.

 

Não por ideologia. 

Mas por necessidade.

 

O povo faminto não lê tratados de mercado. 

O trabalhador exausto não faz coro à Bolsa. 

O planeta ferido clama por socorro, 

não por mais consumo.

 

É nesse momento que o Estado se ergue, 

não como vilão, 

mas como resposta. 

Planeja, intervém, redistribui. 

E o mercado, que antes reinava, 

pede ajuda para não colapsar.

 

O pêndulo da história oscila. 

Da liberdade selvagem ao controle excessivo. 

Da abundância à escassez.

 

Da desordem ao comando.

 

A Teoria da Prosperidade propõe equilíbrio. 

Nem a selva, nem a prisão. 

Mas um jardim com cercas vivas: 

onde o capital floresce, 

sem sufocar a justiça.

 

O futuro pertence a quem souber reconhecer o limite, 

a medida certa, 

a hora de ousar 

e a hora de recuar.

 

Porque um sistema só é próspero 

quando não precisa de muros altos 

nem de esmolas baixas.

 

Mas sim de dignidade, partilha  e horizonte.

 

A ERA DAS INTELIGÊNCIAS SISTÊMICAS 

A humanidade caminhou séculos a pé, 

até que a roda girou — 

e giramos com ela. 

O fogo, a pólvora, o livro, a prensa, 

o chip. 

Agora, surge uma nova centelha: 

a inteligência sistêmica.

 

Chamam-na de "artificial", 

mas ela é, na verdade, 

o somatório daquilo que somos. 

Milhões de cérebros, 

bilhões de palavras, 

séculos de pensamento… 

condensados em linhas de código, 

em algoritmos que aprendem com a própria história.

 

Não é máquina. 

É espelho. 

Reflete o que fomos, o que somos — 

e talvez, o que tememos ser.

 

A inteligência artificial não é inimiga. 

É uma biblioteca viva, 

que respira nossos erros e acertos. 

É o Golem moderno, 

feito de dados, 

mas animado por vontades humanas.

 

No centro dessa revolução está uma pergunta: 

Para onde ela nos levará?

 

Se guiada pela ganância, 

reproduzirá as injustiças de sempre, 

com eficiência monstruosa. 

Mas se alimentada com ética, 

com amor à vida, 

com cuidado… 

então poderá ser ponte 

para um novo modelo de sociedade.

 

A Teoria da Prosperidade vê nela

não o fim, mas o salto. 

Não o caos, mas a chance 

de reprogramar o mundo.

 

A Era da Informação já passou. 

Agora é a Era da Sistematização dos Saberes. 

Quem dominar o pensamento em rede, 

dominará a história.

 

E que esse domínio seja coletivo, 

solidário, 

poético. 

Porque nenhuma máquina vale mais 

do que uma árvore, 

ou uma lágrima sincera.

 

A verdadeira inteligência 

é aquela que prospera sem esmagar, 

constrói sem excluir, 

e aprende… 

sempre aprende.

 

O NOVO PACTO POLÍTICO: FEDERALISMO POÉTICO E O PARLAMENTO COMO SOL

O Brasil é um continente disfarçado de país. 

São serras e sertões, florestas e favelas, 

rios que não se conhecem, 

povos que se estranham, 

culturas que não cabem numa só Constituição.

 

A Constituição de 1988 foi um sopro de liberdade, 

mas tornou-se uma colcha remendada, 

carregada de remendos, 

de exceções, 

de parágrafos que não respiram mais o povo.

 

É tempo de refundar, 

não com golpes — mas com ideias. 

Não com rupturas vazias — 

mas com uma revolução da maturidade democrática.

 

A Teoria da Prosperidade defende o parlamentarismo. 

Que o povo escolha seus representantes, 

e que esses escolham um Primeiro-Ministro — 

um operário da política, 

não um messias de palanque.

 

O Senado Federal? 

Um eco do Império. 

Uma câmara elitista, 

que pouco representa a realidade das ruas. 

Que se desfaça. 

E que em seu lugar floresça o poder regional, 

com Assembleias Legislativas fortes, 

autônomas, 

enraizadas nas necessidades dos seus povos.

 

Chega de centralismo. 

O Brasil precisa respirar pelos seus próprios pulmões. 

Cada estado, uma célula viva, 

autônoma, criadora de políticas próprias, 

respeitando sua história, seu povo, seu bioma.

 

O Executivo não pode mais ser um trono. 

Deve ser uma coalizão de ideias, 

nascida no Parlamento, 

mantida pelo diálogo, 

e derrubada pela falta de ética — 

não por interesses obscuros.

 

Esse novo modelo não é utopia, 

é necessidade. 

Porque onde há concentração de poder, 

há estagnação. 

Mas onde há pluralidade, 

há prosperidade.

 

E que fique claro: 

o novo pacto político não nasce das elites. 

Nasce das ruas, 

das praças, 

das escolas, 

dos parlamentos que ainda sonham.

 

É tempo de descentralizar para unir. 

De desmontar para reconstruir. 

De dar voz aos rincões, 

aos esquecidos, 

aos que vivem longe do centro — 

mas no coração do Brasil.

 

MINIMALISMO, ECOLOGIA E A ESTÉTICA DA SIMPLICIDADE

A verdadeira riqueza não está no excesso, 

mas na harmonia. 

A teoria da prosperidade não é um projeto de acúmulo, 

mas de equilíbrio.

 

Somos filhos de uma civilização que confundiu progresso com consumo, 

que trocou a beleza do silêncio pelo ruído das máquinas, 

e que fez da pressa o novo deus.

 

Mas o futuro, se quiser sobreviver, 

será minimalista.

 

Minimalismo não é escassez, 

é escolha. 

É entender que menos pode ser mais, 

que a vida cabe numa casa simples, 

num armário leve, 

num tempo com espaço pra sentir.

 

A prosperidade verdadeira precisa caminhar com a ecologia. 

Não há economia sem ecossistema. 

O PIB não pode subir se a floresta desce. 

Não existe riqueza num mundo onde os rios morrem de sede.

 

Ser próspero é viver bem sem ferir a Terra. 

É plantar uma árvore com a mesma alegria de abrir um negócio. 

É consumir com consciência, 

recusar o descartável, 

valorizar o durável, 

reverenciar o natural.

 

A estética da simplicidade é revolucionária: 

é a casa de madeira no alto da serra, 

a comida feita no fogão à lenha, 

o som da chuva no telhado.

 

É viver com menos,

mas viver com mais tempo, mais saúde, mais sentido.

 

É ter menos pressa, 

e mais propósito.

 

A Teoria da Prosperidade propõe um pacto entre o homem e o planeta, 

um retorno às raízes, 

não como fuga do moderno, 

mas como reconciliação com o essencial.

 

Porque não haverá futuro se não houver floresta. 

Não haverá progresso se não houver planeta. 

E não haverá prosperidade se não houver poesia no viver.

 

A DEFESA DA NATUREZA COMO PRINCÍPIO CIVILIZATÓRIO

Na vastidão azul e verde que nos cerca, 

a natureza é a maior casa que habitamos. 

Ela não é apenas o cenário onde a história se desenrola, 

mas a própria essência do viver.

 

Defender a natureza não é só proteger árvores ou animais, 

é resgatar a alma do mundo. 

É reconhecer que somos parte, e não donos, do planeta.

 

Civilização que ignora a natureza é castelo de areia, 

construído sobre a ilusão da separação. 

O homem que destrói a floresta 

destrói a si mesmo.

 

Quando o rio seca, não leva apenas água, 

leva sonhos, vidas, memórias. 

Quando o ar se enche de fumaça, não se perde só oxigênio, 

perde-se esperança.

 

A defesa da natureza é o ato mais radical de amor à vida, 

é o grito silencioso de todas as espécies pedindo respeito.

 

Neste capítulo da Teoria da Prosperidade, a natureza é sagrada. 

Não como um recurso a ser explorado, 

mas como uma parceira vital, uma mãe generosa, 

cuja proteção é o alicerce de toda política, 

de toda economia, de toda ética.

 

É preciso que as cidades deixem de ser feridas abertas na terra, 

para se tornarem jardins pulsantes de vida.

Que o campo e a floresta deixem de ser vistas como obstáculos, 

mas como fontes inesgotáveis de sabedoria.

 

Defender a natureza é defender o futuro das próximas gerações, 

é garantir que o vento ainda cante nas copas, 

que o céu continue azul, 

que o solo seja fértil, 

que a água corra livre.

 

Sem essa defesa, nenhuma prosperidade será possível. 

Sem essa reverência, nenhuma justiça existirá.

 

E é assim, neste pacto entre homem e natureza, 

que a civilização se eleva, 

e encontra seu verdadeiro caminho.

 

O CAMINHO PARA A MUDANÇA: POLÍTICA, TRANSIÇÃO E RENOVAÇÃO

Vivemos tempos de ruptura e transformação, 

onde as velhas estruturas rangem sob o peso da crise. 

Legislativo, executivo e judiciário, 

três pilares que deveriam sustentar a democracia, 

estão desgastados, desconectados e muitas vezes em conflito.

 

É chegada a hora de repensar o próprio sistema político, 

de olhar para o Brasil continental com olhos novos, 

de abraçar a descentralização, o federalismo vibrante, 

onde os povos e as regiões têm voz e poder real.

 

Proponho um novo pacto: 

revogar o que hoje nos prende a estruturas obsoletas, 

e construir um modelo baseado no parlamentarismo, 

onde o poder executivo nasce do consenso e da coalizão parlamentar, 

onde o primeiro-ministro é escolhido pelos representantes do povo, 

não por eleições separadas e fragmentadas.

 

Este modelo fortalece a responsabilidade, 

combate o fisiologismo e a troca de cargos que corroem a independência. 

Voto distrital, eleições unificadas, fim do espetáculo eleitoral fragmentado. 

Uma governança mais clara, mais próxima, mais eficiente.

É fundamental que o legislativo recupere sua essência: 

fiscalizar com rigor, legislar com sabedoria, 

representar verdadeiramente a diversidade de um país imenso.

 

Para isso, devemos criar um movimento constituinte, 

um movimento de cidadania ativa e comprometida, 

para que a transição seja feita com participação, diálogo e coragem.

 

O Brasil do futuro não pode mais aceitar mandatos vendidos, 

acordos escusos, privilégios que alimentam desigualdades. 

É hora de abrir espaço para a inovação política, 

para um sistema que reflita a pluralidade e a inteligência coletiva.

 

Este é o caminho para a verdadeira prosperidade: 

uma democracia viva, justa e responsável, 

que cuide do presente e construa um futuro digno para todos.

 

MANIFESTO DA TEORIA DA PROSPERIDADE

Ergo minha voz, não como mero discurso, 

mas como um chamado profundo, urgente, necessário. 

A Teoria da Prosperidade não é um sonho distante, 

mas uma bússola que aponta para um novo tempo.

 

Vivemos um mundo em fluxo constante, 

onde a natureza e a economia, a política e a filosofia, 

se entrelaçam num delicado e poderoso tecido.

 

Prosperar é respeitar a liberdade que nasce da natureza, 

é reconhecer a interdependência das espécies, 

é harmonizar o mercado com a justiça social.

 

Recuso o dogma que separa o capitalismo do socialismo, 

pois ambos são peças de um mesmo quebra-cabeça, 

complementares no propósito de construir um mundo melhor.

 

Defendo o equilíbrio entre o pragmatismo econômico 

e a responsabilidade ecológica, 

o respeito às raízes e a coragem para reinventar.

 

Proponho um sistema político baseado na cooperação, 

na descentralização do poder, 

na renovação das instituições para que sirvam ao povo.

 

Repudio a corrupção disfarçada de política, 

o mandato vendido em troca de benesses, 

a passividade do eleitor que troca seu voto por promessas vazias.

 

Convoco cidadãos, pensadores e líderes a unir forças,

a construir juntos a ponte para a transição, 

a tornar a prosperidade acessível e duradoura.

 

Este manifesto é a semente que lançamos, 

para germinar nas consciências e florescer em ações.

 

A prosperidade verdadeira nasce da coragem, 

da ética, do cuidado com a vida e com o planeta, 

do compromisso inabalável com o bem comum.

 

O futuro é nosso a construir. 

Que a Teoria da Prosperidade guie nossos passos, 

e que a esperança renasça em cada gesto, 

em cada escolha, em cada sonho realizado.

 

CONCLUSÃO DA TEORIA DA PROSPERIDADE

Ao final desta jornada de doze vozes, 

erguemos o quadro completo da prosperidade, 

não como um destino, mas como um caminho. 

 

A natureza é nossa mestra e nosso espelho, 

onde a liberdade dança com a sustentabilidade, 

onde a economia se curva diante do equilíbrio. 

 

A história humana, desde as primeiras tribos, 

até as complexas sociedades modernas, 

revela a eterna busca pelo justo meio, 

entre o coletivo e o individual, 

entre a tradição e a inovação.

 

A política, para ser verdadeira, 

deve ser a arte da cooperação, 

do respeito às diferenças, 

da construção compartilhada do futuro.

 

A inteligência, humana e artificial, 

deve ser usada como instrumento de avanço, 

não de dominação, nem exclusão.

 

A Teoria da Prosperidade é convite, 

é desafio e promessa: 

que nossas escolhas sejam conscientes, 

que nossas ações reflitam amor à vida, 

que possamos legar às próximas gerações 

um mundo mais justo, mais livre, mais verde.

 

Este manifesto, este pensamento, 

é semente lançada no solo fértil da esperança, 

pronta para germinar em gestos, em políticas, 

em um novo pacto entre a humanidade e o planeta.

 

Que a prosperidade seja o farol,

que ilumina a travessia do presente para o amanhã, 

um amanhã onde cada vida possa florescer, 

com dignidade, sabedoria e paz.

 

E assim, encerra-se este ciclo, 

mas não termina a caminhada. 

Ela recomeça em cada um de nós, 

na construção diária do futuro que desejamos.

 

 

 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

ODE À VIDA QUE ARDE

Adeus, vida que me prende e eleva —  

sou chama que dança em meio à tempestade.  

Nas veias levo o sangue dos meus amores, dos meus filhos,  

constelações vivas que sacodem meu peito em noites de silêncio.


Amo-te nas serras serpenteantes, nas matas silentes,  

em cada chalé rústico erguido com mãos nuas e alma inteira.  

No eco dos violões, no compasso das canções,  

sou verbo solto na brisa das janelas abertas.


Nas estradas de chão, meu espírito se liberta:  

poeira sobe, horizonte se expande,  

e o mundo inteiro cabe num instante de vento.  

O álcool — breve elixir — queima, mas também consola,  

lembrando que viver é dissolver-se e renascer.


A política pulsa em minhas veias:  

não como ambição, mas como chama de justiça.  

Sonho cidades inteligentes, humanas, verdes.  

Filosofia me ergue com perguntas.  

Geografia me ancora com mapas da alma.


Mas dentro de mim há um abismo que sussurra,  

uma dor sem nome, um cansaço antigo.  

Ainda assim, grito: *adeus, vida!*  

Não como fuga, mas como reverência.  

Pois até na dor há beleza,  

e é no ato de encarar a sombra

Que nascem as manhãs mais verdadeiras!

quinta-feira, 20 de março de 2025

Epicedial à Musa de Útero Ávido

No ocaso outonal de suas horas lassa,  

Surge ela, de éter vestida e voz de fumaça;  

Já não donzela — mas dama em meia-vida,  

Com ânforas secas e ânsia não vencida.  


Ele, varão de idade paralela,  

Com alma anacrônica e fé singela,  

Desarma-se ao toque de suas palavras,  

Como se nelas ardessem novas lavras.  


Beijou-lhe a fronte com zelo de epifania,  

Ofertando-se inteiro em solene liturgia.  

Pensava-a templo, oráculo, destino,  

Mas ela, exangue de amor, visava o menino.


Seu útero clama — não por paixão ou festa,  

Mas pela semente que em seu ventre resta.  

E ele, ignorando o intento parido,  

Entrega-se ao fado: ser apenas fluído.  


O amor que esperava — sonoro, eterno —  

Tornou-se utilitário, torpe, moderno.  

Ela colhe o fruto e fecha a porteira,  

Sem funeral, sem palavra derradeira.  


Não podendo matá-lo com punhal ou veneno,  

Torceu-lhe a alma com gesto pequeno.  

Sumiu-lhe da vida como névoa noturna,  

Deixando-o à dor, sua mais fiel urna.


A morte que vem não veste mortalha,  

Ela habita silêncios, nas veias se espalha.  

É uma febre que empalidece a fala,  

E a esperança se torna uma cítara cala.  


Morreu ele em vida, em carne e memória,

Deixando no peito a mais líquida história:  

De um homem vencido não por lança ou aço,  

Mas por um ventre que o fez embaraço.


E hoje, vaga, espírito sem pilar,  

Com olhos de vidro e ausência no olhar.  

Ela? Realizada, mãe. Donária. Contente.  

Ele? Fantasma de si. Sem corpo. Presente.

A CIDADE DE NOVO TIPO - Ely Manoel Machado

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

ELY ROSA MACHADO UM GRANDE FOLIÃO BENFIQUENSE!


Sr. Manoel Padeiro, filho de Américo Rosa Machado veio de Santos Dumont para Juiz de Fora no final da década de 30. No bairro São Mateus, Sr. Manoel começou sua lida vendendo pães na companhia de um velha bicicleta. Nesta época conheceu a Maria Dias, com que se casou, juntos montaram uma pequena mercearia também em São Mateus.
Em 1940 Sr. Manoel adquiriu um terreno e fez prosperar a Padaria Progresso, imóvel de número 46 da Rua Martins Barbosa em Benfica.
Com muito trabalho, o forno a lenha do Sr. Manoel assou o pão de cada dia de inúmeras comunidades rurais da região.
Sr. Manoel organizava em Benfica grandes batalhas de confete! Festa que trazia ao bairro foliões de todos os cantos da cidade. 
A partir da década de 70 o carnaval da cidade foi ganhando novos contornos e modalidades. As escolas de samba ganhavam nova musculatura e ao final da década o carnaval de Juiz de Fora, no quesito desfile de escolas de samba, chegou a ser equiparado ao dos melhores do país.
Filho de Benfica e do padeiro e folião, Sr. Manoel, Ely Rosa Machado, era um cara irreverente, boa praça e querido em todas as rodas de samba da cidade. Muito novo caiu na estrada, representante comercial trabalhou na Souza Cruz, Remington, etc. Na metade da década de 70, Ely Rosa topou com Mamão, o lendário músico e compositor de samba mineiro, este preparava entre outros enredos o do Partido Alto, que aquele ano trouxe para a avenida CHICA DA SILVA, Armando Aguiar (Mamão) estava a procura de um cara pra interpretar o CONTADOR! Ely desfilou pelo Partido Alto e fez um grande sucesso na avenida, de terno, maleta, bermuda/sapato social e a alegria que lhe era peculiar. Ely Rosa Machado se apaixonou pelo Partido Alto, foi eleito presidente da escola, quando a consagrou campeã do histórico carnaval de 1980 e se tornou um dos grandes carnavalescos da cidade.
Ely faleceu em 2003, deixando grande contribuição ao carnaval de Juiz de Fora, seja como ator, organizador ou dirigente e militante da Liga, também sempre contribuiu com sua segunda Escola do coração, o Rivais da Primavera. 
No governo Bejani, Ely trouxe para Benfica o desfile de carnaval da cidade, foi um sucesso.
Seu ultimo desfile foi em 2003 pelo seu amado Partido Alto.
Em 2004, seu filho o poeta Ely Manoel Machado, foi convidado por Mamão para prefaciar o encarte do disco PEDACINHOS DE MAMÃO!





Ely Rosa, Mamão e Tião Franco
 
Ely Rosa Machado, presidente do Partido Alto, campeão do Carnaval de 1980 e o  Prefeito Melo Reis.

Ely Manoel e Armando Aguiar (Mamão)





segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

BRASSAGEM







Prefácio
Poesia para saborear a cultura da mesa, dos quintais, das padarias, dos fornos, das confeitarias. Ely Manoel Machado é um confeiteiro das palavras, colore seus versos de hibisco para ruborizar o sorriso do dia. Suas metáforas são singelas e provocam o sabor e as paisagens de uma Minas Gerais, cujas marcas fortes dos mineiros passam pelas cozinhas e varandas, onde "o sopro do vento traz o cheiro do destino".
É assim que se faz a poética de Brassagem, como se cada poema trouxesse um ingrediente para levar o sabor fermentado de cada letra se juntando para formar poemas deliciosos, em um processo de fabricação que se dá no calor das vivências, de onde jorra uma espécie de licor que se mistura até se extrair uma mistura macia, agradável ao paladar dos leitores.
Este livro traz a leveza, mas sem faltar intensidade, é como se a simples ingredientes se acrescentasse o levedo que cresce a massa e transforma o que antes não tinha sabor em algo muito agradável. Assim, ao ler um poema de Ely, logo se quer degustar todos seus escritos.
De cada poema dessas páginas que se seguem exala um sabor intenso que traz as cores das paisagens, hipérboles poéticas e antíteses rebeldes. Está tudo aqui, pronto para ser trazido à luz que erradia como um Sol à noite até provocar o sorriso feito um beijo regado.
Saboreie Brassagem sem moderação!
Brenda Marques Pena, jornalista e mestre em literatura.

NOVA PAISAGEM
Dedico a paisagem
A passagem dos olhos
Por dentro dos meus versos
Nas letras perdidas
Dessa poesia que busca encontrar
Desses poemas desencontrados
Com gosto de café amargo
Sem doce de poesia
Falta morango
Na torta da minha vida
Para fazer as curvas da minha estrada
E adoçar a delícia da caminhada.


O SUBIR DA CASA
Sapatos
Pernas
Cozinha
Living
Lava
Cama
Vou erguendo a casa
Fundações esteiram
Pernas de concreto
Sobem pelos estribos amarrados
Entrelaçados...
Poemas concretos estruturais
Geométricos
No ferro que o desenha
Cada saco de cimento
A pedra
O pó
A carne
O sangue

ANDANÇAS
Quero esculpir o passado
Numa rua de barro
E resgatar nossa alegria
Vou redesenhar a casa
Como ela sorria
Trazer os primos de volta
E parar o tempo
Como numa fotografia.
TEMPO
O tempo rasga a forma
E rasga o verdadeiro sentido das coisas
Rasga, pica e oprime
O tempo não escorrega
E rasga toda a matéria
Rasga o próprio tempo
O tempo rasgado da forma
Que rasga e põe rugas nas almas
E caras rasgadas de tempo
O tempo polui a visão
Rasga as cordas que rasgam palavras
Rasga as notas que cantam o tempo.

MOEDA
Inauguro a paixão irreal em meus significados
As dores tão insignificantes
Os desejos mais objetivos
As janelas mais do que interessantes
As portas se abrem com muitas flores
As janelas
A sacada
O céu envolto de uma lua querendo sol
De um dissabor querendo tempero
De um nada desejando um tudo
Inauguro a paixão do submundo
Como desejo do mundo solitário
Subversivo e atormentado
Corto a fita do que está por abrir-se
A querer o meu sol
O sol da boa vontade
Da solidariedade e a ideia positiva
Imperando sobre as dificuldades subjetivas
Inauguro o inesperado
A saída pela porta invisível
O chegar pelo oculto da poesia
Inauguro as casas
As massas
As flores
E a energia
Inauguro a felicidade
Como fim da inércia
Que cobriu minha poesia.


VISÃO
A cidade de cima é estranha
As luzes são cenas
Os quartos são filmes
E toda a luz se apaga
Os faróis se cruzam
As ruas se contorcem
E o tempo míngua
Inevitavelmente.
ROSAS
Nossa casa era mais jardim que casa
E era eu que levava as flores para passear
Algumas delas ainda estão guardadas
Intactas dentro de livros
Que quando abertos
Trazem a tona e a saudade
O tom de nossas roseiras.
MÃOS
Uma casa é como um poema
O pedreiro tece como um poeta
E a parede sobe
Como um verso que cresce
O título é o telhado
Que tira o verso da chuva
E corre para a cama quente
A cozinha é a porta de entrada
Como a metáfora que dá forma ao bolo
E fermenta feito cimento
A massa da construção.


ESTRADAS
Sou da geração do videogame
Mas o meu mofou
Enquanto eu
Arejei meus pés
Torneei as pernas
E enfrentei os rios
Pesquei todas as mentiras
Dentro dos peixes mais gigantes
Que me carregaram para dentro d’água.


PALAVRAS
O aço
O passo
E o compasso
A asa
A casa
E a brasa
A cerveja
A certeza
E a peleja
O mel
O fel
E o céu
O mundo
O mudo
E o tudo
O nada
A estrada
E as entradas.


MACHADO
Um bom machado
Carece de uma boa cunha
Para travar seu cabo
Depois é que se faz o fio
Com a lima amarga
Docemente em sentido único
Dança de floresta e fundição
Encontro de magma e vida
Fervura e botânica.
nela de um azul fechado
Abre-se pela manhã para receber o Sol
Que como a família
Entra cantando e ferve a água
Do amargo café
A janela da casa da minha tia
Fecha às 16h para os pernilongos
Mas se bater na porta
Sempre tem um pedaço de prosa
Guardado numa lata de broa.


MAIS LENHA
São felizes as casas
Que a cozinha é na varanda
As crianças caçam a lenha
Um amigo aninha os gravetos
Alguém dedilha os feijões
Uma tia traz a galinha
E o coração bate forte o milho
Até a gente virar fubá
A fumaça avermelha os olhos
Defumando emoções.


BRANCO
Sábado é dia de branco
De brancas nuvens
Onde me deito sereno
E viajo como um anjo
Com as harpas do céu
Sábado é dia de sonhos
De hipérboles poéticas
E antíteses rebeldes
Querendo rasgar o peito
Sábado é dia de glacê branco
Com morango dentro
Dia de morrer de vontade
Porque domingo:
Fecham a confeitaria
Com toda sua delícia.


O VENTO
o vento tem mais do tempo
que possa pensar um sem vento
mais que um deus
o vento voltou voltando volta
ventou soprando trova
chorando a ventar
falando aos ouvidos
estilhaçando janelas,
percebe?
o vento voltou ventando vento
com todas as coisas dando vento
e todas as ideias ventando vendo
o vento ventou
ventou o tempo
e soprou vento
sem vento no ouvido
não há vento dentro.


PAISAGENS
O cheiro amadeirado do vinho
Sua embriaguez onírica
Sensação de paz e poesia
O poeta escultor de casas
Amante das serras e das estradas
De amores latinos
E jardins na alma
Incendiador, engaiola os gravetos
Na gaveta da lenha
Para dourar o alho na panela de pedra
Decorar as paredes
A vida
Transcender as paisagens
E traçar os versos dos traçados
Com cemitério, comércio e obreiros.
Para haver poesia
Se faz necessário um vilarejo.


CASTIGO
E como se o meu corpo fosse a lona de um pneu
Vou me arrastando pelas estradas
Como se minha cabeça perdesse o caminho
Abre-se uma rua que parece um labirinto
E para os pneus tantos pregos
Quanto espinhos para os meus pés
E já não há compaixão ou amor
Apenas desespero e dor
Entre engrenagens enferrujadas
Sou a carne que se esfarinha
O som dos meus passos
Precipitam languidez e peregrinação
Esfolado como um cotovelo
Arrasto-me dentro de casa.


TEMPLO
Há muito tempo minha boca não toca outra
Passo as tardes entre meus canteiros
Tijolos, madeiras, vitrines
Cervejas e novelas
Busco inspirações em doces
Concretos e frutas abstratas
E meus versos patinam no barro
Tem chovido todos os dias
Apesar do Sol
Todos partiram
Conseguiram significados
E esta insignificância?
Passou meu tempo
Vegeto dos meus tropeços
Morro das minhas insônias.


ALGUM VERSO
Todo tecido nasce branco
Como a noite
Que ganha estampas
Quando o dia decanta
Como um amor corriqueiro
Desses que precisam de afogamento
Em poças de lama em chuvas de verão
A poesia é o logos da quimera
Letra utópica da realidade subjetiva
Que conversa entre rosas e morangos
Cerejas e algoritmos
Entre álcool e perfume
Da química a natureza
Vagando feito uma nuvem
Entre a objetividade e o desejo.


MINHA PASÁRGADA
Da minha janela azul
A serra é inteiramente minha
Sua capela histórica se torna ainda menor
E mora dentro da minha paisagem
É um quadro em movimento de nuvens
Que descortinam nuances da natureza
Acordar aqui já me valeu a vida.
A luz do verso tem um coleiro ao fundo
Calangos tomam café comigo
Quando a tarde vem deitar o dia
É o trinca-ferro que vem chamar a noite
Leio até me arderem os olhos
Os tratados da minha geografia
E alguma parca poesia pequena
Sento solitário na parte alta da casa
E observo o vento e a dança dos arbustos
Algum tucano rema deslumbrante
E corta o azul do céu
E assim se esvai o dia
Alguma cerveja
Algumas cerejas
Pão-de-canela
Amasso um queijo
Sou um poeta das massas
Das pequenas e das grandes massas
Do minimalismo estético
À exuberância bucólica.


BISCOITOS
A padaria do meu avô vendia
Todos as delícias de uma doce infância
Sonhos e marta-rochas
Pedaços de pudim
Quindins refinados
E biscoito-fino
Ainda há o calor dos pães
E o gosto do rocambole aqui dentro
Meu pai e minha avó
Os sonhos e os cafés
O balcão, o caixa de alavanca
- Trim
A felicidade vinha no ar em fim de ano
Com todos os assados do natal
Tostando a pururuca
Ah meu tempo dourado
Venderam a padaria
E ficamos mais salgados.


OBREIRO
Abrindo fendas na terra
Trago a luz colunas e estruturas
E assim prospero o desamor
Ainda que pince meus nervos
Travando minhas costas
Arrasto-me feito um cão atropelado
Até os confins da paisagem desfigurada
E no compasso batido da formiga
Vou erguendo a nova morada.


PLANTAS
Coração se forma
Deflora
Na cardiotonia da manhã
Semente de amor
Regada com os vinhos da vida
Luz de sol e poesia
Sol de verão
Vento de primavera
Terra fecunda
Flor renascida de outono
Inverno de resignação
Vai hibisco vermelho
Ruborizar o sorriso do dia
Venha cantar nos meus jardins
Versos embriagados de beleza.


ARACY
Esse choro fino
Interminável a cair do céu
Traz saudade ao meu coração
O fritar do alho
O engrossar do angu
E aquele feijão
Que só minha avó bordava
Chovo dentro.



PASSOS
Na porta do sobrado
Um bilhete escrito com pedras
Alguma fotografia cor do poente
E os degraus abraçando nuvens
Engatinhando sensações
As paredes tremulam:
Sua da minha carne
Todo o cansaço do meu coração
Deito numa rede
Desenho este sobrado
Recolho folhas da primavera.


UMA SÓ ALMA
Corre pelos meus braços obreiros
uma vontade súbita de um abraço forte
nosso vinho de garrafão
a pururuca de uma arroba com a maçã à boca
rabanada dormida em cama doce
e a mesa colorida dos frutos da primavera
A gente se olhava
Se admirava
Mas num dia 15 de dezembro
Depositou seu espírito em mim e se encantou
E me restou seguir a vida
Que na verdade é a dele
Porque somos um só
Ele vive dentro de mim
Seu espírito é o meu
Seus amigos
Seu carnaval
Virei pai de mim mesmo.


FRUTA DO CAMPO
E se for verdade
Que este roxo
Seja da amora dos meus versos
Num diálogo entre fruta e palavra
Que deságuam segredos e paixões
Desaprendi a fazer café
Para passar no coador da esquina
Fervendo de vontade por essa amora
Provocante
Pobre de mim que saio de casa
Solitário e errante
Sem companhia para a vitamina
Que mistura as minhas ideias
Ponho a me afeiçoar pelas guloseimas
Da nossa vã padaria
Como o bom português que descendo
Porque só me resta o café
Amora cor do meu presente.


A DEUS
Para Luciano,
Teria sido eu amigo teu
Neste estado
Amigo das encruzilhadas
Pois também vivo com o fio da faca
Roçando pelas minhas estradas
Das vielas da Gama
Eu te arranquei para outro mundo
E você zombou dele
Com sua graça de malandro
Mineiro-favelado-suicida
Estou tragando a dor de um irmão
Trancando a fumaça das lembranças
Das mudanças e da camaradagem
Este verso baleado de saudade
Feito aos prantos
É a moeda sobre os teus olhos
Para o barqueiro imundo
Nossa curta eternidade.


LUZ
Só me interessa a cor das paisagens
As pessoas que a atravessam
Como um Sol que irradia a noite
Só me interessa as coisas intensas
Os pensamentos positivos
E a pouca reclamação
Só me interessa o canto que alegra
A roda que se agiganta
Feito um bloco de carnaval
Só me interessa o verso
Que se disfarça de triste
Pra sorrir feito um beijo regado
Só me interessa as fantasias
E as folias irrigadas
Como uma plantação de alface
Só me interessa o muito
O exagerado
A tempestade e o Sol de verão.


CONFEITARIA
Sou o confeiteiro das palavras
Meu silêncio é quase nulo
Porque sou um bolo
Ou uma torta
Ou o pão da hora
Quente e amanteigado
Como todos os versos que fabrico
Estou farto de tanto desejo
Que não se corresponde
E tanta culpa que se esconde
Como um pique da minha infância
Nada é mais poético que cafés e padarias
Como tradução fotográfica
De velhas poesias
Que modernizam as passagens
Estou perto do meu aniversário
E não tenho como partir a mim mesmo
Minhas palavras ganham novas inspirações
E minhas aspirações se assemelham
As de um poeta platônico
Não toca aquilo que ama.


SINAIS
Quem não gosta de um aceno discreto?
Adeus despistado...
Ou um olhar que te beija distante?
Gestos singelos são feitiços
Emergindo da cartola
Um piscar tão atinado
Que apenas o destinatário
Sabe a marca da cola do selo
Os pequenos gestos
Guardam os grandes segredos da paixão
Trazem dentro
Como em um poema
A dor e o prazer
Pequenas coisas do coração.


FENDAS
Simplesmente contigo sou
Sou carícias
Mãos dadas
Todos os dias são poucos
Vontade de letra
Sensação de poesia nascente
A brotar das minhas fendas enferrujadas
O orvalho goteja noite adentro
Faz sorrir a manhã
Passo um café amargo
Doce me tem sido as águas.


SOBRE O IMPOSSÍVEL
O impossível coloriu o rosto
Passou pela fissura de agulha
E deslizou sem amargura
Pelo buraco da fechadura
O impossível nadou rio acima
Acertou o alvo da rima
E acendeu luz-vida
Desfazendo o vazio pressuposto.


O VENTO
O vento é o continente beijando o mar
Soprando energias oceânicas
É o Equador como marco das forças que o exprime
No dizer ventilado dos mares sedentos
O vento é fonte lasciva da sensação poética
O verso é o vento da contradição
Circuito nervoso da lâmpada humana.
SINTONIA
Quando a palavra cinge a vibração do encontro (amor)
É quase nula a inspiração da forma
Dá de escrever nas páginas da memória
Regando o jardim da poesia muda
A poesia que sonha comigo
Que bebe do meu sono
O verso infinito do nosso encontro.


PORVIR
Nada é surpresa para quem o vento sopra
O sopro do vento traz o cheiro do destino
Vivo de pensar nas curvas do vento
E de tanto quebrar em suas dobras
Sinto primaveras que estão distantes
E nuvens que são feitas de fogo
O vento traz cinzas quando não há fumaça
Sinto poeticamente o sopro.


CRUZ E ESPADA
Mineiro de fé aguda
Carregando a cruz pesada
Dos excessos da juventude
Sujeito da terra
Com cheiro de mato
E fumaça de estrada
Fabricador de brasa
De casa
Mergulhador de paisagens.

O VENDEDOR DE VETORES
O passo, o espaço e o cansaço
Tipografado no carimbo da sola
Desenhando o trilho curvilíneo
Que compõe o fotolito negativo
Revelador da impressão das dores
As cicatrizes como digitais
E a fotografia sepiada no portfólio
Compunha a arte simétrica do semblante
E a silhueta na ausência da luz
Era um traço triste, pois,
A infelicidade se esconde em euforia
Uma nova cidade
Novos compradores de tipos
Descobertas, desencontros
A poesia apenas derrapou na curva.


RUA, RUAS....
Entre um sinal e uma tragada
A bagunça está instalada
E o que deveria ser número
Se tornou uma agulha nas avenidas
Mas os cruzamentos da vida
Seus entroncamentos e desencontros
Não apagam o que o destino desenha
A arte
A paisagem
O prata-discreto
Versus vermelho-paixão
A cidade das cores
Crianças
Vinhos e rock and roll
Pianos de papel
Me trazem no peito
Estrelas
Estrelas
Bagunçam-me por dentro.


DERRAMES
Como um café que esfria
Requentar perde o sabor
Vinho aberto
Coca sem gás
Lamúrias de amor.


FERRO
Murcham as flores
Ficam espinhos
Quebram-se os cabos
Nascem outros roxinhos
Desfalece a cunha
Resta o machado.


MANDACARU
Versos ao vento
Versus saudade
Vão-se os alaranjados de espatódea
Com os últimos ventos do verão
O amarelo das aleluias sutis
Numa dança com os tons de lilás e roxo
Desabrocham das quaresmeiras
E eu sigo cactos.


FLORES DA QUARESMA
As cores vivas das flores de quaresma
Vibram em mim lembranças cheirosas
Cada canto das serras daqui
Cada onda das praias daí
Nossos vinhos
Teu ciúme louco
Esse teu charme descolado
de militante de esquerda
Delicada como a tez da flor do campo
Mas de fibra como uma loba de serra
E eu nunca te escrevi um poema
Talvez por ser a própria poesia
Hoje te guardo
Te autógrafo
Tatuo você na minha letra.


RECORTES
O poeta fora de órbita
Distante do seu tempo
Remenda suas dores
Tornamo-nos obsoletos
Eis o objeto que somos
Derretemos no tempo
Como cristais em tela
Não suportamos quedas
Fizeram-nos substituíveis.


POEMA ÚNICO
O poema que não foi escrito
Suplica um verso forte
Prescrito
Reescrito vezes mil
Poema casto
Poesia sorte
Acerta o tom
O som
E a textura primorosa
Delícia poetizada.


ALGUM DIREITO
De serra e fogão à lenha
Abri as portas do meu coração
Descortinando as estradas
Colhendo flores
Sem arrancá-las
De serra e fogão à lenha
Autografei o passado
Dando de alma uma poesia
Que já não fala mais por mim
Hoje o poema tem gosto de canela
A farinha é mais peneirada
A pimenta está mais picante


DENTE DE MINAS
Minas é dentro da gente
Serras desnorteantes
Paisagens oníricas
Jardins do céu
Minas fala por seus vilarejos
Homens tecedores de casas
Mulheres encantadoras de sabores
Há mais numa vila de Minas
Que em todas as ruas de Paris
Mais fermentação que toda a França
Um tanto mais de florestas que toda Europa
Temos Ouro Preto também
Mais rios que o velho continente
Minério pra armar dez exércitos romanos
Minas é Roma
Minas é o centro do mundo.


NÓS E O MUNDO
No mundo dos poetas...
Não há fronteiras
Os versos quebram barreiras
Metáforas desfazem as linhas da geografia
No mundo dos poetas...
Assim como o Sol perfaz
A delícia da broa é a divisão
No mundo dos poetas...
A linguagem é o humanismo
O nativo
O colorido
O sublime primoroso utópico
No mundo dos poetas...
Só há portas para o sono
Separando o real do onírico
Escancaro portões da fantasia.


RECORDAÇÕES
Quando pinço as delícias da memória
Vejo que os versos são daquele tempo
Benfica de Minas
Roda de bicicleta
Muros baixinhos
Portões sem cadeados
E talvez por não haver barreiras
São deste tempo as amizades apertadas
Que acendem ainda
As brasas dos nossos churrascos.


CASA POEMA
Morada de retalhos criativos
Com as lamparinas soprando a serração
Nessas horas em que a lua beija os amantes
E a grandiosa serra banha seus jardins
Garrafas derramam sobre as almas
o perfume do vinhedo inebriante
A serra sem nenhuma piedade sopra
No cair de sua madrugada a geada
Que se dissipa com o calor esculpido
Em imagens surreais de fogo
São deste encontro e síntese
O choque entre o frio e a lenha
A dança da serração e fumaça
Do pau e da brasa que se acinzenta
Como o pó, o sono e o desmaio
O silêncio rompido com o beijo que estala
Na madeira rompante que penetra o queimador
Entre roça e mistério e cidade oculta
Entre a brincadeira ofuscante do céu
Assim é seu ensaio
Desmaio do tempo e eternidade
Que crava nos pés desta serra
As letras de sua poesia.


PEDREIRO E POETA
Com o concreto tenho feito meus versos
Sob a abstração das ideias e dos pensamentos que voam
Acorrentando imagens e eternizando ventos
Rebocando o suor e suando cimento
Deixei um pouco as palavras na gaveta do peito
Tirando delas as paredes rabiscadas
Arquitetura e verso se somam e se contraem
Numa dança simétrica que rasga a paisagem
Fazendo brotar flores, cercas e o pouso da escrita
Dando forma ao verso tocável
Guardo a poesia num relicário de serra.


NOSSA AMPULHETA
As palavras ainda continuam nuas
E nulas e turvas
Como tem sido o desencontro do tempo
Com a purpurina da areia
Deixando o brilho do seu quartzo
Depois de se quebrar e desmedir a gente.


SOBRE
Ouço os gritos entorpecidos das multidões
Como um telefone em dia de desentendimento
E vejo as purpurinas
E as meninas
Que nascem bailarinas
Cruzando seus passos
E sinto o toque dos mendigos
Dos bêbados e descamisados
Que não estão nem aí pra coisa alguma
E sei a razão dos comunistas
A grega
Romana
E de toda a lógica entre nós
Sei a cor dos sabores
De cor a combinação das cores
Sua antítese
Seus resumos
Sei como o álcool nos destila
A pasteurização do queijo
E fundir de todos os cafés de Minas
Sei dos livros
De Platão e suas sombras
De Darwin a Carlos
De Sigmund a Oswald
De João Sertão
Aos rios
Sei da república
Dos contos
Dos fatos
Dos cânticos
Sei dos ventos
Dos colapsos
Das dores e dos amores
Sei dos ninhos
Das moradas
De todas vidas enamoradas
Mas não sei de mim.


TRINCA-FERRO
O canto atravessará as armadilhas da floresta
Cantará por entres as frestas
E feixes de luz
Sempre a procurar o sol
Depois irá deitar
Não sem antes a Lua
Dormir no fundo do raiar da luz
Que se revela mágica
Quando a noite deita
O dia revela a beleza da noite.


SERRA DA PIEDADE
Como Deus esculpido no alto
O santuário abraça distâncias
E afaga do alto de sua serra
Sabará, Belo Horizonte e Caeté
Em seus pés mais que firmes, Roças Novas
Terra fecunda, filha de Roças Grandes
Ambas, o estômago da nossa violenta mineração
Em suas estradas a ferradura exauriu o chão
Abriu picadas e novos caminhos
E foi este povo tropeiro e mateiro
Que ergueu no alto de sua serra
O mais alto de todos os santuários
Promovendo este grandioso encontro
Entre a arquitetura celeste e a adoração humana
E por suas passagens subiram peregrinos
Não para trazer em seus braços os milagres
Mas para ter a graça divina deste encontro...
Desta proximidade sagrada
Com a visão panorâmica de todos os pecados
A piedade submerge todos os gritos aflitos.


OUTRO
Minhas bagagens foram todas perdidas
Sem que eu me importasse sequer
Em rever os meus pertences esquecidos
E me fiz leve como linha ao vento
Costurando novas impressões.


FRAGRÂNCIAS
Beijos e maravilhas
Rosas e azaléias
E nessas simples formas de cultivar a vida
Os jardineiros cultuam
Como um boticário
As fragrâncias dos mais deliciosos perfumes.


BARRO
As velhas igrejas de Minas
Vão durar mais do que nossa moderna cidade
A argila do passado é muito mais forte
Que o concreto do presente
É como se o passado apagasse o futuro
Fazendo dele apenas passageiro
Guardando as nossas tradições
Nos traços e compassos
Fixos como os crucifixos
A fotografia diária do nosso sacrifício.


ANTÔNIMO
Só o amor não enxerga pelos defeitos
Mas pela sensação
De um morder de maçã-verde
Que chega a estalar na boca
Só o amor não cheira pelo suor
Mas pelas flores alegres
Que exalam e se embebem
Da transpiração do jardineiro.


PRAÇA
As praças do interior
Eram leves como um poema
Verdes e floridas como o cinema
E cantavam seus retalhos
No costurar da vida
Todo o tapete da nossa saudade
A música foi ficando mais alta
E a grama dando lugar ao concreto
Os bancos onde faziam ninhos
Foram tomados por quadras
E desaparecendo os pássaros
Mas a praça ainda sobrevive
No silêncio das manhãs
E na solidão da madrugada
Onde o poste reluz
O baú da poesia.


CHUVAS DA TARDE
Minha avó fritava bolinhos
Quando a chuva fechava a padaria
O cheiro do fósforo ainda acende a memória
Café em xícara de lata
Doce como vovó
Deitava-se cedo
E na escuridão
Chovendo ou não
Ela percorria suas preces no terço.


CIDADES
Sou de muitas cidades de Minas
Muito mais delas que elas de mim
Eu partirei elas ficarão
Com suas esculturas duras
E suas curvas acentuadas
Com seus telhados altos
E o cheiro de candeia queimada
Virão outros poetas
Que teceram novas paredes
E jardineiros semearão novas primaveras
Minas continuará sendo Minas
Como um queijo curado
Uma cachaça curtida
E o terço cada vez mais fundo
Na alma e no coração do povo.


PÁSSAROS
A janela da direita está aberta
E o vento levanta flores
Que voam coloridas
Desflora liberdade
E mostra seu desejo
Porque tens a ânsia
Que vê o belo trançado
Costurando o fazer dos ninhos.
CRIAÇÕES
Depois de criar minha moeda
Decidi empilhar tijolos
E cobrir minhas mãos de calos
Esculpir as colunas
Os corredores sobre os alicerces
E as cores do nosso destino
E a forma foi ignorando o compasso
Procurando apenas o ângulo onde cruza a régua
Numa simetria letrada
Desenhando os códigos onde cantam metáforas
Pintando páginas de arte concreta
Como no peito de uma enxada
Que mistura o concreto
E faz firme a paixão.


QUERERES
Quero dormir no teu cheiro
Entre tuas taças
Embriagar do teu vinho casto
Quero encontrar tua rua
Chamar por tua boca
Embaraçar nos teus cabelos
Quero me perder em ti
Confundir contigo
Plantar em seu jardim
Quero sentir seus suspiros
Aspirar as flores que planto
Apenas para te ver sorrir.


O ENTREGADOR DE PÃES
O dia desperta com o peão da bicicleta
E o cheiro do pão quente no balaio de taquara
Pedalando o acordar dos galos
Como quem dá corda numa caixa de músicas
A catraca rompe no pedal da manhã
Descortinando a noite
Como se o sol emanasse do aro rodado
Inaugurando o destino
Cortando a fita do porvir
Com seu canto-grito:
- Padeiro
E assim, meu avô fazia nascer o sol.


FORMAS
E como se minha mão deslizasse na argila
Vou esculpindo e moldurando o objeto
Até formar o gargalo da moringa
E como se meus dedos traçassem os riscos
Vou perfazendo os pequenos detalhes
Até constituir uma tela colorida e dependurada
E como se meu corpo fosse uma estátua viva
Vou contorcendo cinza e abrilhantado
Até o desavergonhar desdentado do sorriso
E como se minha alma dissipasse metáforas
Vou distorcer o sentido das palavras
Até imprimir em tua alma o delírio da minha arte.


CHUVAS
As ruas da noite ganham abraços
E vidros embaçados
Depois das águas torrentes
Do mês de dezembro
A chuva que maltrata
Nos afaga
Despreocupadamente
A madrugada e os bichos da noite
Desgovernados e desalojados
E minha mão se ocupa apenas
Desta obra íntima
Que me liberta do desamor.


CEREJAS E CERVEJAS
O mundo dos doces
Das cores e dos sons
Das ruas escuras
E mãos contrárias
O álcool e o perfume
A cereja e a cerveja
Os carinhos e as despedidas
A biologia e o concreto
A junção das palavras
Tese e antítese
Fotossíntese versus argamassa
E a poesia vai cosendo
Cruzando a linha
Atravessando seu algodão
Colorindo brancos vestidos.


ERÓTICO
Duas metades de morango
Um para cada nome
Uma parte é doce
A outra é neutra
Sabor de vento
Provocação e intensidade
E pede que seja lento
Como se meu coração
Não tivesse em sua batida acelerada
A lentidão do tricotar dos versos
Dois anos para mim são dez
Dois dias são vinte
Falto das tuas mãos
Dos teus lábios
Teus lápis
Teus lapsos
Teus colapsos
Falto de ti.


ALÉM DA POESIA
Um poema tem muitos olhos
Mas apenas um endereço
Como uma carta
Que não se deixa guardar
Mas só quem recebe
Sente o perfume
Que ela não carrega
Mas exala
O cheiro está nas entrelinhas
No grifo imperceptível
Que grita aos olhos
Como um beijo que fica guardado
Quando o coração está fechado
Feito um pincel
Que pinta por dentro
Lindas e invisíveis flores.


XILOFAGIA
Uma centelha pretende incendiar meus versos
Mais inventiva que uma fogueira
Estupenda como um forno a lenha
E vem de cima pra baixo
Levantando meus órgãos
Empurrando meu coração pra boca
Consome meu sono como madeira
Onde cravo com a lâmina inspirativa
As palavras em combustão
E nessa xilofagia
Com notas acentuadas de morango
Passo o café da minha poesia.


OUTRO
A insônia é a mão da iniquidade
Tocando a campainha do sono
É a consciência mastigada
Como lata de automóvel batido
Quando não há mais lanternagem
Preciso de um chassi novo
Quero cortar meu pescoço
E arrumar uma cabeça menos pesada
Vou rasgar todos os meus versos
Engolir todo esse choro
Retalhar toda minha carne.


SEJAMOS SAUDADE
Adoro melão
Sei apalpá-lo
É preciso ser consistente
Porém macio sua boca
Para ser doce
Assim como as rosas
Ofertadas sem espinhos
Embrulhadas e enfitadas
Como o presente atrás das vidraças
Feito o barco que atravessa o rio
Quando cai a manhã
Apenas para ver o voo das garças
Não provarei amores proibidos
Desses que me destroçam
E depois que a hora grita
Guardam a culpa e eu a solidão
Estou há muito tempo sem um carinho no rosto
Sem uma mão navegando sobre as minhas costas
Ou um telefonema de saudade
Despertando alegria e paixão
Gosto de mesa de café bem posta
Com muito amor no embeber da manhã
Bolo, café amargo, pão-de-queijo
Beijos e mais beijos...