quarta-feira, 26 de março de 2008

SEM RIO A LAVOURA NÃO TEM HISTÓRIA

Coisas advindas do incompreensível, aliás, o Câmara Cascudo, genial regionalista, cientista do folclore, místico-religioso, belo, trocou correspondências com o nosso Silva Mello – ateu até a data de sua morte – aliás, duas datas: nascimento e morte, Fernando Pessoa.
Cascudo desmistifica o mito. A complexidade do que foge a compreensão. Ou seja, sem o barato do candomblé não se pode entender o biopsicotipo de qualquer brasileiro que seja. O Brasil é o grande terreiro do infinito. É a mistureba da mística. É o lado Chico Xavier do papado. As religiões brasileiras cumprem o acontecimento endeusador do rango. O povo brasileiro é a encruzilhada do frango. A cachaça está para Ogum assim como o vinho para Jeová...

...É inaudita a miscigenação tropical brasileira. Somos tupiafroeuropeuasiáticos, o tudo. Glauber Rocha foi preciso na sua análise antropológica da questão ao conceber que não existe cultura sem agricultura. O índio antropofágico papou Sardinha. Eis a simbologia, o conhecimento passa à condição de comida.
Nesse turbilhão de coisas fantásticas. Incompreensíveis. A osmótica da brasilidade é perceber que o céu tupiafroeuropeuasiático tem as cores de Dante. O Brasil tem o céu que a Europa leu, mas não viu. Disse o grande poeta "Os céus continuamente giram, e enviam influxos aos mortais, sem cuidar de qual a casa em que venha baixar esta ou aquela essência"...


...Dante descreve céu a céu de acordo com as características astrológicas, ou seja, os efeitos de diferenciação do povo brasileiro. O céu de Dante é o mar do pensamento tropical.
Outro fator que incorpora a dialética do pensamento regional é água.
“Vestia-se de água e de vento, por fora e por dentro” poetou Marcelino Botelho.
O céu e os astros são diferentes quando observados de lugares desiguais. A terra é sem igual nas veredas que a tecem.
A regionalidade é o motor psicológico da cultura. Sem rio a lavoura não tem história. A genialidade galega é multiplicada nos seus mais de mil rios.
Juiz de Fora existe em função do Rio Paraibuna. O povoamento ribeirão. O rango. O rango. Concretismo: o rango mais uma vez....


...Silva Mello é o doutor honorário da deglutição do conhecimento. Um imortal de plantão. A história da vida começa na Boca, depois a defecção. Este sanitarista juizforano genial sistematizou o funcionamento do reator humano. Do dente de nascimento ao ânus da morte.
Esta integridade regional define com clareza que o ato mais estupendo do viver é a ocasião da divisão do rango. A felicidade está sobre a mesa da família.
Há disparidade muita entre a cozinha de Silva Mello e a biblioteca de Pedro Nava, dois gigantes da medicina juizforana...


... A regionalidade nos une independente de nossos pensamentos filosóficos, ócio econômico-social ou mesmo ocupação profissional. No trópico todo mundo fala o dialeto do rango.
Juiz de Fora está num vale de muita riqueza hidrográfica. A cidade é a encruzilhada da simbologia natural de beleza, folia e paladar. Pois que a grande verdade regional é que a Princesa de Minas é filha do Rei Momo. Isso é ser tão juizforano. Arte, alegria e rango. Arte, alegria e rango. Mil vezes.
A história se constitui na ótica daqueles que a escrevem....

...Outro juizforano que tem papel importantíssimo na formação biopsicossomática da incorporação contemporânea da imortalidade memorial, é a figura lendária de Carlos Bracher. Para o crítico Olívio Tavares de Araújo, Bracher é um resistente da pintura “se dedicou a uma pintura figurativa, de filiação expressionista, fundada em técnicas tradicionais que ele dominava com perfeição... Ainda hoje Bracher é um independente. Não pertence a nenhum grupo ou movimento, não está ligado a marchands e outros promotores culturais e cuida quase silenciosamente de sua obra e carreira”.
Talvez por isso, Bracher no início da década de 70 tenha escolhido Ouro Preto. Ninguém soube falar a plástica do amanhecer como Bracher. Um gigante. Poeta-visual.
Entre brumas ao longe surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
O verso é de Alphonsus de Guimaraens. Poeta de Ouro Preto. “O elemento distintivo da poesia de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) é a solidão, um conceito que ultrapassa as questões geográficas, devendo ser entendido na sua acepção metafísica: o homem é por essência um ser solitário devido à distância intransponível entre seu corpo e sua alma, cabendo-lhe viver em forma de lenda os seus desígnios mais íntimos” Miguel Sanches Neto.
Na obra de Guimarães Rosa, o cenário é sempre regional, ponto
Certa vez, por um parênteses da minha regionalidade, fui assistir a abertura juizforana ausente no Museu de Arte Moderna da Pampulha. Caminhei lentamente sem timidez em direção a cada uma daquelas telas. Elas foram produzindo uma mágica, um êxtase, orgasmo, não sei dizer nada do incompreensível. Era a arte da minha terra. Assisti o artista Carlos Bracher ser ovacionado com todas as honras da sua grandeza. Não ousei tocar em nada ali.
Um dia, anos depois, o fio-condutor da eletricidade osmótica traz à Juiz de Fora um Carlos Bracher que eu nunca pensei que fosse. O Castelo dos Bracher produziu na memória da minha infância uma transe de realeza. Mas não tem nada disso.

A arte dá sempre a possibilidade de grandes amizades. É o fio.


O Carlos é um sujeito de boas palavras ditas a boca miúda. Usa bem os ouvidos, quando fala, quase sempre em médio tom, sua acústica produz a inexplicável magia da ressonância.
Carlos Bracher é um sujeito probo, humilde, regional, paraibuniano. Come e bebe de maneira frugal. É de fato um gênio da espécie. Sobre suas mechas alucinantes que compõem a originalidade da cabeleira um par de óculos reflete um sol que não conhece a noite. Derrama-se sobre, uma cachoeira de luz que não se apaga jamais.
Minha biopiscossomática agradece. Acrescenta aí, Carlos Bracher é juizforano da gema. E ama sua natal.

Juiz de Fora, 14 de novembro de 2003.