quinta-feira, 20 de março de 2025

Epicedial à Musa de Útero Ávido

No ocaso outonal de suas horas lassa,  

Surge ela, de éter vestida e voz de fumaça;  

Já não donzela — mas dama em meia-vida,  

Com ânforas secas e ânsia não vencida.  


Ele, varão de idade paralela,  

Com alma anacrônica e fé singela,  

Desarma-se ao toque de suas palavras,  

Como se nelas ardessem novas lavras.  


Beijou-lhe a fronte com zelo de epifania,  

Ofertando-se inteiro em solene liturgia.  

Pensava-a templo, oráculo, destino,  

Mas ela, exangue de amor, visava o menino.


Seu útero clama — não por paixão ou festa,  

Mas pela semente que em seu ventre resta.  

E ele, ignorando o intento parido,  

Entrega-se ao fado: ser apenas fluído.  


O amor que esperava — sonoro, eterno —  

Tornou-se utilitário, torpe, moderno.  

Ela colhe o fruto e fecha a porteira,  

Sem funeral, sem palavra derradeira.  


Não podendo matá-lo com punhal ou veneno,  

Torceu-lhe a alma com gesto pequeno.  

Sumiu-lhe da vida como névoa noturna,  

Deixando-o à dor, sua mais fiel urna.


A morte que vem não veste mortalha,  

Ela habita silêncios, nas veias se espalha.  

É uma febre que empalidece a fala,  

E a esperança se torna uma cítara cala.  


Morreu ele em vida, em carne e memória,

Deixando no peito a mais líquida história:  

De um homem vencido não por lança ou aço,  

Mas por um ventre que o fez embaraço.


E hoje, vaga, espírito sem pilar,  

Com olhos de vidro e ausência no olhar.  

Ela? Realizada, mãe. Donária. Contente.  

Ele? Fantasma de si. Sem corpo. Presente.