No ocaso outonal de suas horas lassa,
Surge ela, de éter vestida e voz de fumaça;
Já não donzela — mas dama em meia-vida,
Com ânforas secas e ânsia não vencida.
Ele, varão de idade paralela,
Com alma anacrônica e fé singela,
Desarma-se ao toque de suas palavras,
Como se nelas ardessem novas lavras.
Beijou-lhe a fronte com zelo de epifania,
Ofertando-se inteiro em solene liturgia.
Pensava-a templo, oráculo, destino,
Mas ela, exangue de amor, visava o menino.
Seu útero clama — não por paixão ou festa,
Mas pela semente que em seu ventre resta.
E ele, ignorando o intento parido,
Entrega-se ao fado: ser apenas fluído.
O amor que esperava — sonoro, eterno —
Tornou-se utilitário, torpe, moderno.
Ela colhe o fruto e fecha a porteira,
Sem funeral, sem palavra derradeira.
Não podendo matá-lo com punhal ou veneno,
Torceu-lhe a alma com gesto pequeno.
Sumiu-lhe da vida como névoa noturna,
Deixando-o à dor, sua mais fiel urna.
A morte que vem não veste mortalha,
Ela habita silêncios, nas veias se espalha.
É uma febre que empalidece a fala,
E a esperança se torna uma cítara cala.
Morreu ele em vida, em carne e memória,
Deixando no peito a mais líquida história:
De um homem vencido não por lança ou aço,
Mas por um ventre que o fez embaraço.
E hoje, vaga, espírito sem pilar,
Com olhos de vidro e ausência no olhar.
Ela? Realizada, mãe. Donária. Contente.
Ele? Fantasma de si. Sem corpo. Presente.