terça-feira, 7 de outubro de 2025

O CANTO DAS ERAS E DOS HOMENS

 "No princípio era o Verbo…"  

e o verbo era vinho,  

e o vinho era sangue,  

e o sangue era vida —  

vida em abundância,  

mas também em excesso,  

como Deus mandou e Byron bebeu.


Fui feito de barro,  

mas me recriei em brasas,  

quando li Dante e desci aos círculos  

que a cidade finge não ter.  

Vi Fausto trocar sua alma  

pelo instante eterno de um desejo,  

e pensei: “Quantos de nós já não vendemos  

a eternidade por um cargo comissionado?”


"Vês tu aquela estrela que fulge no alto?"  

Era a nau negra de Castro Alves,  

que ainda hoje ecoa na alma do Brasil:  

"Senhor Deus dos desgraçados!"  

— mas quem escuta?


Traguei versos como se fossem absinto,  

“vai, miséria, vai-te embora…”,  

e me embriaguei com Augusto dos Anjos,  

com suas vísceras expostas  

e sua alma toda em carne viva,  

onde até o amor era ciência  

e a morte, uma velha conhecida.


Oswald me chamou à mesa:  

comi o pau-brasil cru,  

com tempero de civilização,  

e me lambuzei na antologia da antropofagia —  

pois só digerindo o mundo  

poderíamos, enfim, cuspir poesia.


Sou de Minas, onde o erótico  

se esconde entre montanhas.  

Drummond me deu um poema  

com cheiro de mulher nua e fogão a lenha:  

“amar se aprende amando”,  

e que outro ofício teria mais sentido?


E foi então que Adélia me abriu os braços  

como se fossem janelas para dentro,  

e me disse:  

“Ser poeta é quando Deus vem visitar,  

mas tira os sapatos para não assustar o chão.”  

Deitei no colo dela,  

e soube que o mundo  

é um quintal com galinhas,  

e ainda assim sagrado.


Este é meu testamento.  

Minha oferenda.  

Minha missa laica.  

Minha espada e minha rosa.


Aos que vierem depois,  

que digam:  

“ele foi um homem em brasas,  

com alma de fonte.”  

E mesmo ferido,  

nunca deixou de erguer a taça  

e brindar à vida,  

com todos os seus amores,  

suas ruínas e renascimentos.


Amém.  

Saravá.  

Salve.