"No princípio era o Verbo…"
e o verbo era vinho,
e o vinho era sangue,
e o sangue era vida —
vida em abundância,
mas também em excesso,
como Deus mandou e Byron bebeu.
Fui feito de barro,
mas me recriei em brasas,
quando li Dante e desci aos círculos
que a cidade finge não ter.
Vi Fausto trocar sua alma
pelo instante eterno de um desejo,
e pensei: “Quantos de nós já não vendemos
a eternidade por um cargo comissionado?”
"Vês tu aquela estrela que fulge no alto?"
Era a nau negra de Castro Alves,
que ainda hoje ecoa na alma do Brasil:
"Senhor Deus dos desgraçados!"
— mas quem escuta?
Traguei versos como se fossem absinto,
“vai, miséria, vai-te embora…”,
e me embriaguei com Augusto dos Anjos,
com suas vísceras expostas
e sua alma toda em carne viva,
onde até o amor era ciência
e a morte, uma velha conhecida.
Oswald me chamou à mesa:
comi o pau-brasil cru,
com tempero de civilização,
e me lambuzei na antologia da antropofagia —
pois só digerindo o mundo
poderíamos, enfim, cuspir poesia.
Sou de Minas, onde o erótico
se esconde entre montanhas.
Drummond me deu um poema
com cheiro de mulher nua e fogão a lenha:
“amar se aprende amando”,
e que outro ofício teria mais sentido?
E foi então que Adélia me abriu os braços
como se fossem janelas para dentro,
e me disse:
“Ser poeta é quando Deus vem visitar,
mas tira os sapatos para não assustar o chão.”
Deitei no colo dela,
e soube que o mundo
é um quintal com galinhas,
e ainda assim sagrado.
Este é meu testamento.
Minha oferenda.
Minha missa laica.
Minha espada e minha rosa.
Aos que vierem depois,
que digam:
“ele foi um homem em brasas,
com alma de fonte.”
E mesmo ferido,
nunca deixou de erguer a taça
e brindar à vida,
com todos os seus amores,
suas ruínas e renascimentos.
Amém.
Saravá.
Salve.