terça-feira, 7 de outubro de 2025

UM POEMA EM TRÊS ATOS

 ATO I – SILÊNCIO E VÉU


A luz da ribalta acende sozinha.  

O teatro está vazio, exceto por mim,  

sentado na poltrona do meio,  

com os olhos cheios de história  

e as mãos cansadas de eleição e verso.


As cortinas se abrem com um gemido antigo,  

como quem acorda um tempo esquecido.  

Do lado esquerdo do palco, entra Deus,  

com túnica feita de vento e barro.  

Do lado direito, o Diabo,  

com gravata vermelha e sapatos caros.


No centro, uma cadeira vazia.


— Começa o julgamento, diz uma voz sem dono.


ATO II – O DEBATE


DEUS (em tom sereno):  

“Este homem é feito de carne,  

mas viveu como se fosse fênix.  

Não pregou em púlpitos santos,  

mas discursou nas esquinas da polis  

com a ousadia dos profetas.”


O DIABO (rindo com fumaça):  

“Ah, mas também bebeu dos cálices errados!  

Flertou com o caos, dançou com o ego,  

e muitas vezes confundiu amor com salvação.”


DEUS:  

“E não é isso ser homem?  

Errar com poesia?  

Gritar justiça em tribunas surdas?  

Ely não traiu a vida —  

Ele a espremeu até o bagaço!”


DIABO:  

“Ele quis demais!  

Poder, beleza, rebeldia, fé…  

Achava que podia conciliar o barro com a chama.  

Foi político e poeta.  

Mas não se pode servir a dois senhores!”


DEUS (erguendo o olhar):  

“E quem disse que ele servia?  

Ele combatia.  

Questionava.  

Transformava trincheira em altar  

e palanque em confessionário.”


A cadeira ao centro, antes vazia, agora brilha.  

É o lugar do Julgado.


Mas eu continuo na plateia.  

E percebo: o réu sou eu, sim — mas também sou o júri.


ATO III – O VEREDITO


O teatro some.  

Agora sou só eu  

— Ely Manoel Machado —  

caminhando por uma estrada de chão batido,  

com a Constituição em um bolso  

e um poema amarrotado no outro.


Deus e o Diabo?  

Sumiram como fumaça de incenso.


Porque, no fim,  

a sentença é viver.  

E a absolvição?  

É não se calar.


A câmera se afasta.  

A trilha é Adélia sussurrando,  

Drummond no rádio,  

Castro Alves batendo o pé.  

E as serras de Minas, eternas,  

acendem suas candeias no horizonte.