ATO I – SILÊNCIO E VÉU
A luz da ribalta acende sozinha.
O teatro está vazio, exceto por mim,
sentado na poltrona do meio,
com os olhos cheios de história
e as mãos cansadas de eleição e verso.
As cortinas se abrem com um gemido antigo,
como quem acorda um tempo esquecido.
Do lado esquerdo do palco, entra Deus,
com túnica feita de vento e barro.
Do lado direito, o Diabo,
com gravata vermelha e sapatos caros.
No centro, uma cadeira vazia.
— Começa o julgamento, diz uma voz sem dono.
ATO II – O DEBATE
DEUS (em tom sereno):
“Este homem é feito de carne,
mas viveu como se fosse fênix.
Não pregou em púlpitos santos,
mas discursou nas esquinas da polis
com a ousadia dos profetas.”
O DIABO (rindo com fumaça):
“Ah, mas também bebeu dos cálices errados!
Flertou com o caos, dançou com o ego,
e muitas vezes confundiu amor com salvação.”
DEUS:
“E não é isso ser homem?
Errar com poesia?
Gritar justiça em tribunas surdas?
Ely não traiu a vida —
Ele a espremeu até o bagaço!”
DIABO:
“Ele quis demais!
Poder, beleza, rebeldia, fé…
Achava que podia conciliar o barro com a chama.
Foi político e poeta.
Mas não se pode servir a dois senhores!”
DEUS (erguendo o olhar):
“E quem disse que ele servia?
Ele combatia.
Questionava.
Transformava trincheira em altar
e palanque em confessionário.”
A cadeira ao centro, antes vazia, agora brilha.
É o lugar do Julgado.
Mas eu continuo na plateia.
E percebo: o réu sou eu, sim — mas também sou o júri.
ATO III – O VEREDITO
O teatro some.
Agora sou só eu
— Ely Manoel Machado —
caminhando por uma estrada de chão batido,
com a Constituição em um bolso
e um poema amarrotado no outro.
Deus e o Diabo?
Sumiram como fumaça de incenso.
Porque, no fim,
a sentença é viver.
E a absolvição?
É não se calar.
A câmera se afasta.
A trilha é Adélia sussurrando,
Drummond no rádio,
Castro Alves batendo o pé.
E as serras de Minas, eternas,
acendem suas candeias no horizonte.