A vida —
essa orquestra sem maestro —
começa em um compasso descompassado
de berros, tetos e páginas em branco.
Estudar é cavar poços em desertos
onde às vezes brotam girassóis
com doutorado em luz.
Pensar é tocar gaita em espelhos partidos,
onde os reflexos discutem Freud
enquanto você só queria dormir mais cinco minutos.
Divertir-se:
ah, isso sim é dançar nu
com os pés em brasas e os olhos na lua,
é rir sem motivo no meio do mercado,
e fazer careta pro tédio que te observa do banco da frente.
A poesia é um sabiá que canta Gonzaguinha no rancho.
Filosofar é tentar dar nome à fumaça.
Politicar é xadrez com peças invisíveis
em que você às vezes é rei,
às vezes, peão…
e quase sempre, tabuleiro.
Amar é nadar solitário em cachoeira gelada
e esquecer que amanhã tem imposto pra pagar.
É construir casas com tijolos de abraço,
mesmo quando o cimento da rotina insiste em rachar.
Cantar —
é sussurrar acordes às paredes
só para ver se elas choram.
Pintar quadros despretensiosamente
é como fazer café ruim
só para conversar com alguém.
Resolver burocracias complexas
é desatar nós em cordas que ninguém vê,
mas que amarram o seu salário no fim do mês.
Cuidar de si é encontrar, entre a papelada,
um bilhete com sua própria letra dizendo:
“Calma, você ainda está aqui.”
E quando tudo enjoa —
até o sol parece reencenado —
é hora de morrer um pouco:
não no corpo,
mas no excesso.
Morrer antes de virar estatística,
antes que seja tarde para esquecer
que, por um breve instante,
você soube o que era ser feliz.
E foi.
Talvez ainda seja.