quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Sinfonia dos Sonhos

A vida —  

essa orquestra sem maestro —  

começa em um compasso descompassado  

de berros, tetos e páginas em branco.


Estudar é cavar poços em desertos  

onde às vezes brotam girassóis  

com doutorado em luz.  

Pensar é tocar gaita em espelhos partidos,  

onde os reflexos discutem Freud  

enquanto você só queria dormir mais cinco minutos.


Divertir-se:  

ah, isso sim é dançar nu  

com os pés em brasas e os olhos na lua,  

é rir sem motivo no meio do mercado,  

e fazer careta pro tédio que te observa do banco da frente.


A poesia é um sabiá que canta Gonzaguinha no rancho.

Filosofar é tentar dar nome à fumaça.  

Politicar é xadrez com peças invisíveis  

em que você às vezes é rei,  

às vezes, peão…  

e quase sempre, tabuleiro.


Amar é nadar solitário em cachoeira gelada  

e esquecer que amanhã tem imposto pra pagar.  

É construir casas com tijolos de abraço,  

mesmo quando o cimento da rotina insiste em rachar.


Cantar —  

é sussurrar acordes às paredes  

só para ver se elas choram.  

Pintar quadros despretensiosamente  

é como fazer café ruim  

só para conversar com alguém.


Resolver burocracias complexas  

é desatar nós em cordas que ninguém vê,

mas que amarram o seu salário no fim do mês.  

Cuidar de si é encontrar, entre a papelada,  

um bilhete com sua própria letra dizendo:  

“Calma, você ainda está aqui.”


E quando tudo enjoa —  

até o sol parece reencenado —  

é hora de morrer um pouco:  

não no corpo,  

mas no excesso.  

Morrer antes de virar estatística,  

antes que seja tarde para esquecer  

que, por um breve instante,  

você soube o que era ser feliz.  

E foi.  


Talvez ainda seja.